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sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Anna Karénina" de Lev Tolstoi [Opinião Literária]

Título: Anna Karénina
Autor: Lev Tolstoi
Editora: Relógio D’Água

Sinopse:
«Embora seja uma das maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o leitor habitual possa crer que seja. Esta moral não é certamente o ter cometido adultério, Anna pagou por isso (num sentido vago pode dizer-se que é esta a moral do final de "Madame Bovary"). Não é isto, seguramente, por razões óbvias: se Anna ficasse com Karenin e escondesse do mundo o seu affair, não pagaria por isso primeiro com a felicidade e depois com a própria vida. Anna não foi castigada pelo seu pecado (podia muito bem ter-se safado deste) nem por violar as convenções da sociedade, muito temporais como aliás são todas as convenções e sem ter nada a ver com as eternas exigências da moralidade. Qual era então a «mensagem» moral que Tolstoi queria passar neste romance? Entendemo-la melhor se olharmos o resto do livro e compararmos a história de Lévin e Kiti com a de Vronski e Anna. O casamento de Lévin é baseado num conceito metafísico, não apenas físico, do amor, na boa-vontade e no sacrifício, no respeito mútuo. A aliança Anna-Vronski é fundada apenas no amor carnal e é aqui que reside a sua ruína.»
Vladimir Nabokov in Posfácio

Opinião:
Tal como esperava, encontrei, encerrada nas inúmeras páginas deste livro, uma obra-prima, um clássico literário indiscutível. Contudo, não encontrei apenas a estória de amor que esperava, mas principalmente um retrato genial e exaustivo da sociedade russa na segunda metade do século XIX, pontuado por questões pertinentes e surpreendentemente atuais do foro político, social, religioso e filosófico.
A crítica de costumes está sempre presente ao longo da narrativa, enfatizando a dicotomia entre a vida na cidade e o quotidiano no campo, entre a alta sociedade e a exploração do povo com salários miseráveis. O autor aborda diferentes perspetivas, deixando o leitor formular os seus próprios juízos. É precisamente esta rigorosa análise de uma sociedade em ebulição que eleva esta obra a outra dimensão.
A temática catalisadora da narrativa é o adultério. Mais precisamente, o romance extraconjugal de Anna Karenina com Vronski que se estabelece como o fio condutor de todo o enredo e terá um impacto determinante na vida das restantes personagens. Este evento potencia a crítica de Tolstoi à hipocrisia e ao cinismo da sociedade russa. Adoro a forma como Stiva e Anna, irmãos, representam polos opostos do mesmo tema. Stiva envolve-se com a perceptora inglesa dos filhos, em busca do prazer sexual que o casamento com Dolly já não lhe fornece, e surge como uma vítima de um casamento deteriorado. Anna, por outro lado, escandaliza todos os que a rodeiam por ceder a uma paixão que culmina em tragédia. Encontra-se aqui bem patente a mentalidade patriarca de uma sociedade em que as aparências contam mais do que a própria felicidade.
Infelizmente, por vezes, senti-me algo desconectada da estória, não me apaixonou como esperava e algumas personagens não despertaram as emoções pretendidas. Anna é demasiado inconstante e indefinida, algo, apagada, nunca consegui criar uma verdadeira empatia com esta personagem. Por conseguinte, tornou-se até secundária em relação a um leque de personagens mais interessantes, cada uma constituindo uma sublime representação dos diferentes membros da sociedade: os nobres, os eruditos, os latifundiários, os militares, o constante fosso entre a corte e o povo. A personagem mais fascinante foi, para mim, Konstantin Levin, um homem do campo, com as suas reminiscências sobre a morte e a fé – ou a sua respetiva falta de – e a sua paixão por Kitty, uma jovem da alta sociedade. Acabei por apreciar mais esta estória de amor do que a principal, devido à reticência de Kitty em admitir os seus sentimentos e à eterna devoção de Levin.
A escrita de Tolstoi é uma autêntica pérola, com uma cadência extraordinária pontuada por metáforas que enriquecem a prosa. Porém, o autor apresenta uma certa tendência para repetir a mesma ideia demasiadas vezes, tornando o livro algo denso.
Com um final trágico e algo abrupto, Anna Karénina adquire um realismo palpável, estabelecendo uma relação entre a condição social e o potencial para a felicidade. Este romance espelha precisamente a infelicidade de quem almeja seguir o que é socialmente aceitável, em detrimento da sua concretização pessoal. Na verdade, até que ponto conseguiremos ser realmente felizes quando nos limitamos a viver segundo o que os outros pensam? É esta a forte mensagem de uma obra que, longe de ter sido viciante, acabou por me cativar, inesperadamente, pela componente da crítica social. Com uma qualidade inegável, foi uma excelente introdução à literatura russa, a qual aconselho vivamente.

8 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim, este mês foram poucos mas logo grandes calhamaços xD E boas leituras pelo menos :)

      Beijinhos*

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  2. É verdade, a Catarina conseguiu resumir o teu mês em poucas palavras. Este livro está na minha lista de leitura há uns bons tempos. Tenho de me decidir a lê-lo :)
    Beijinho

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  3. Mónica, adorei a tua opinião! Gostei muito da forma como a escreveste e salientaste o poder que Tolstoi tem de mostrar a hipocrisia da sociedade daquela altura.
    Sem sombra de dúvidas, a opinião que escrevi no meu blog não chega aos calcanhares da tua :p
    Só temos uma divergência...eu adorei a Anna Karenina, principalmente a sua inconstância. E a sua história de amor é igual a muitas que acontecem no dia-a-dia, em que uma mulher deixa um homem porque se apaixona por outro, mas que esse amor acaba por se desmoronar (claro que no nosso quotidiano a mulher não tem este fim trágico :p). Mas são visões diferentes e, de qualquer das maneiras, adorei ler a tua opinião :)
    Beijinhos e boas leituras

    (desculpa o testamento :p)

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    1. Oh não digas isso, gostei tanto da tua opinião!
      Quanto à Anna Karenina, pronto, são opiniões xD Percebo o teu ponto de vista claro, mas o Konstantin Levin cativou-me muito mais enquanto personagem :P

      Beijinhos e boas leituras!

      (e agradeço qualquer tipo de testamento :P)

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    2. Também gostei do Konstantin Levin, principalmente das suas reflexões :)

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