A Thousand Frames: "Eragon"
Género: Ação/
Aventura/Fantasia
Realizador: Stefen Fangmeier
Estreia: 14
de Dezembro de 2006
Elenco: Ed
Speleers; Jeremy Irons; Sienna Guillory; Robert Carlyle; John Malkovich;
Garrett Hedlund
A reader lives a thousand lives before he dies. The man who never reads lives only one. [George R. R. Martin]


Como já
referi, esta é uma adaptação muito inteligente, na medida em que utilizou algumas
modificações à estória original para potenciar toda a crítica ao voyeurismo que o livro encerra. Todas as
maquinações e estratégias utilizadas pelos criadores d’os Jogos são retratadas
ao longo do filme, dando mais ênfase ao processo que se desenrola no backstage. Esta mudança, apesar de
significativa, foi bastante positiva na medida em que deu mais relevância ao
papel do Presidente Snow e transmitiu a ideia de corrupção e crueldade do
governo.
Porém, houve
um detalhe modificado logo no início do filme que me irritou solenemente. A
origem do pin do mockinjay que a Katniss utiliza como símbolo durante os Jogos
foi completamente alterada! No livro, é Madge, filha do governador do distrito
12, que oferece o pin à Katniss, enquanto que no filme é Katniss que o compra
quase aleatoriamente. Existe uma motivação muito importante por detrás deste
símbolo, cuja explicação é fornecida nos volumes seguintes da trilogia e que
não percebo como será enquadrada nos próximos livros. É uma pena que não tenha
sido tão explorado, na medida em que o pin acaba por representar um ataque
subtil ao Capitólio e estabelece-se como o símbolo de uma revolução.
Relativamente
à componente romântica, penso que o filme acabou por dar mais ênfase ao
desenvolvimento do amor entre Peeta e Katniss do que o livro sugere. Na estória
original, o ângulo romântico é utilizado como Katniss para ganhar a simpatia do
público, baseando-se numa necessidade de sobrevivência. O filme traz-nos uma versão
mais romântica, em que Katniss aparenta nutrir verdadeiros sentimentos por
Peeta. O próprio final do filme acaba por perder o impacto dramático pois existe
um momento no livro (e que não se encontra nesta adaptação) em que Peeta
descobre que Katniss fingiu durante o tempo que estiveram na arena. Já agora,
outro pequeno detalhe ausente do final do filme é a amputação de uma das pernas
de Peeta, em virtude dos ferimentos que sofreu na arena. O desenlace final do
filme desiludiu-me um pouco em relação ao original, mas suscita a curiosidade
do espetador para a sequela.
De um modo
geral penso que todos os papéis foram bem entregues, mas Saoirse Ronan
(Melanie/Wanda) merece um destaque especial ao interpretar com grande eficácia
duas personagens tão distintas no mesmo corpo. Foi possível discernir a voz e
personalidade de cada uma, sem que parecesse forçado ou irrealista.
O único
dissabor (ainda que pequeno) consistiu na prestação de Diane Kruger (Seeker).
Apesar da sua prestação se coadunar perfeitamente com a personagem, criei
expectativas demasiado altas e não consigo explicar concretamente o quê, mas
esperava algo mais: mais malícia, mais determinação, mais impacto talvez…
Os veteranos
Jeremy Irons (Macon Ravenwood) e Emma Thompson (Mrs. Lincoln) são estrondosos,
como seria de esperar. Também Emmy Rossum (Ridley) e Thomas Mann (Link) levaram
a cabo umas excelentes interpretações.
A começar
pelas personagens principais que, para além das diferenças no aspeto,
supostamente não deveriam ter a pronúncia acentuada do Sul dos EUA. Era um dos
aspetos que os destacava da população de Gatlin nos livros e durante a maior
parte do filme os sotaques foram um pouco irritantes e às vezes forçados. Também
a relação entre o Ethan e a Lena está substancialmente diferente no filme: sem
conversas telepáticas, sem choques quando se tocam, sem as obsessões peculiares
da Lena (queria tanto ter visto o seu colar cheio de recordações ou a sua mania
de escrever constantemente e em todo o lado a marcador)… Pareceu-me que substituíram
os momentos mais enternecedores do livro por cenas românticas mais vulgares.
Apesar de tudo, os protagonistas mantiveram uma certa química especial que
associo à relação nos livros, o que é sem dúvida um ponto a favor.
As
personagens secundárias também sofreram algumas alterações substanciais,
principalmente Ridley, a prima de Lena ligada às Trevas. Em termos visuais
esperava algo muito diferente (onde está o chupa-chupa?),
apesar de ter gostado da interpretação badass
da atriz. No entanto, o final que lhe deram foi uma desilusão, pois no
livro é-lhe dado um momento de redenção e aqui simplesmente foge numa atitude
de cobardia. Quanto ao resto da família, até gostei das respetivas
caracterizações, com a exceção do Larkin, que digamos que não é tão bonzinho
quanto o filme dá a entender.
E a
derradeira desilusão do filme: o seu final. Ou melhor, uma das piores partes
nem sequer é o final, é a revelação da verdadeira identidade de uma das
personagens a meio do filme (que só acontece no final do livro, claro)! Mais
ainda, a mitologia é deturpada de tal maneira que as regras da magia são
diferentes e menos coerentes. O desenlace do livro é bem mais emotivo, mas
também mais lógico, com as consequências da escolha de Lena bem presentes,
levantando algumas questões morais e filosóficas. No filme, praticamente tudo no
desfecho é inventado, nada acontece da mesma maneira no livro e a única questão
que levanto é: porquê?

A grande
surpresa para mim foi Jonathan Rhys Meyers no papel de Valentine, que apesar de
não corresponder em nada à descrição física original, trouxe uma intensidade à
personagem que me impressionou. Confesso que tinha ficado dececionada quando vi
o trailer, considerei-a uma caracterização risível mas agora tenho que engolir
a minha perceção inicial. 
Uma das
minhas cenas favoritas do primeiro livro é o salvamento de Simon do Hotel
Dumort. No filme, existem algumas mudanças que me incomodaram um pouco. A luta
estava brutal, não o nego, mas faltou alguma coisa aos vampiros, queria-os mais
obscuros (onde está o líder Raphael já agora?), com uma aura que inspirasse verdadeiro
terror quando Clary e companhia se aventuram pelo hotel. Mais ainda, o Simon é
supostamente transformado num rato, o que para mim constitui um dos momentos
mais hilariantes da estória. Sem dúvida que é uma opção mais dramática vê-lo suspenso
no ar por correntes, mas ainda assim passei a cena toda à espera da
transformação. Ainda na questão dos vampiros, gostaria de saber porque é que a
mordida de Simon nunca mais é explorada ao longo de filme. Não faz muito
sentido mostrarem algo quando não tencionam abordar esta questão (que pertence ao
segundo livro curiosamente).
As
capacidades de Clary estão bastante engrandecidas no filme. Os seus desenhos da
runa antes de sequer saber o seu significado nunca acontece no livro e a sua
habilidade de criar novas runas só é descoberta no final do segundo volume. Paralelamente
estragou a minha perceção de uma rapariga normal a tentar integrar-se num mundo
que mal conhece, mas admito que deu mais poder a uma personagem que não teria
grande ação de outra maneira.