RECENTES

Mostrar mensagens com a etiqueta Caminho. Mostrar todas as mensagens

domingo, 25 de novembro de 2012

"Ensaio Sobre a Cegueira" de José Saramago [Opinião Literária]

 

Título: Ensaio Sobre a Cegueira

Autor: José Saramago

Editora: Caminho

Sinopse:
Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como “um rastilho de pólvora”. Uma cegueira colectiva. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.

Opinião:
Na minha opinião, ainda existem demasiadas ideias preconcebidas relativamente às obras de Saramago, incluindo Ensaio sobre a Cegueira. Sim, é uma leitura complexa e nada fácil. Sim, apresenta um estilo peculiar de escrita. Sim, Saramago não se poupa a descrições repugnantes. Mas é isto que torna esta obra tão especial, porque retrata verdadeiramente e sem pudor uma sociedade de cegos em que prima a luta pela sobrevivência, a lei do mais forte, a insensibilidade humana.
A narrativa é na maior parte do tempo aflitiva, angustiante, leva o leitor a desesperar perante as dificuldades sofridas pelas personagens e tudo aquilo que a humanidade é capaz nos seus piores momentos. Personagens estas sem nome, sem país de origem, sem uma referência ao tempo, porque esta é uma alegoria da sociedade mundial em geral, que vive das aparências e dos preconceitos, rejeitando qualquer vislumbre do que está para além da superfície. É esta a moral da estória: vivemos num mundo em que, apesar de não estarmos cegos, só vemos o que nos convém.
Por conseguinte, Saramago foca a importância de “ver” com “olhos de ver”, de ignorar as aparências e atentar ao interior do ser humano. Este é, portanto, um livro não apenas para ler mas principalmente para refletir!
 
19:39 Publicada por Unknown 0

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde" de Mário de Carvalho [Opinião Literária]


Título: Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde

Autor: Mário de Carvalho

Editora: Caminho

Sinopse:

Lusitânia, séc. III d.C. Neste romance, talvez o mais importante de Mário de Carvalho, tudo se passa numa cidade da Lusitânea, Tarcisis, no momento em que Império Romano começa a soçobrar, devastado por factores internos e externos, as invasões bárbaras e a cristianização. E é num ambiente de decadência que todo o romance se desenrola. Apanhado na vertigem dos acontecimentos e rodeado de sinais que escapam ao seu entendimento, Lúcio Valério, o magistrado supremo é espoliado e perde todo o seu poder. Mário de Carvalho avisa-nos, no começo do romance: "...Tarcisis nunca existiu...", no entanto, devemos estar atentos, sobretudo os detentores do poder, aos sinais dos tempos, para percebermos o que nos acontece.

Opinião:

Este é o relato de Lúcio Varélio, exilado da sua cidade, Tarcisis, após ter exercido o cargo de duúnviro (governador) do município. A narrativa, descrita na primeira pessoa, aborda os acontecimentos que potenciaram o seu exílio.

Lúcio é uma personagem complexa, um homem íntegro, culto e justo que não se identifica com alguns atos bárbaros típicos da cultura romana. Contudo, estes aspetos desagradam o seu povo, o que torna o seu governo árduo e extenuante. Pois esta é uma verdade muito atual: um governante que não satisfaz as exigências do povo e dos restantes políticos é simplesmente posto de lado.

Porém, este não é o seu único problema. Lúcio, apesar da sua fibra moral, acaba por se sentir atraído pela líder de uma seita cristã, Iúnia Cantaber. Obviamente, tal facto apenas complicará o seu mandato e proporcionará reviravoltas nas vidas de todos os que o rodeiam.

Por conseguinte, o enredo é cativante e é muito interessante a forma como o autor retrata a época romana. Apesar de não ser uma leitura fácil, na medida em que Mário de Carvalho utiliza uma escrita e linguagem por vezes exaustiva, o leitor acaba por permanecer preso à estória que se desenrola.

É um excelente livro para quem aprecia o género histórico e reflexões filosóficas e políticas que, apesar de situadas na época romana, refletem a sociedade moderna.


00:26 Publicada por Unknown 0