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terça-feira, 21 de maio de 2013

"O Nome da Rosa" de Umberto Eco [Opinião Literária]

Título: O Nome da Rosa
Autor: Umberto Eco
Editora: Gradiva

Sinopse:
Um estudioso descobre casualmente a tradução francesa de um manuscrito do século XIV: o autor é um monge beneditino alemão, Adso de Melk, que narra, já em idade avançada, uma perturbante aventura da sua adolescência, vivida ao lado de um franciscano inglês, Guilherme de Baskerville.
Estamos em 1327. Numa abadia beneditina reúnem-se os teólogos de João XXII e os do Imperador. O objecto da discussão é a pregação dos Franciscanos, que chamam a igreja à pobreza evangélica e, implicitamente, à renúncia ao poder temporal.
Guilherme de Baskerville, tendo chegado com o jovem Adso pouco antes das duas delegações, encontra-se subitamente envolvido numa verdadeira história policial. Um monge morreu misteriosamente, mas este é apenas o primeiro dos sete cadáveres que irão transtornar a comunidade durante sete dias. Guilherme recebe o encargo de investigar estes possíveis crimes. O encontro entre os teólogos fracassa, mas não a investigação.
 
Opinião:
Nunca um livro abrangeu de uma forma tão perfeita os componentes mais diversos: uma excelente caracterização histórica, as constantes e exigentes reflexões filosóficas, uma crítica social pujante e, acima de tudo, um verdadeiro enredo policial intenso e profundamente intrigante.
Umberto Eco desenvolve um retrato histórico sublime da Europa no século XIV, do quotidiano numa abadia beneditina, ao mesmo tempo que, com um engenho inigualável, cria uma investigação criminal complexa, capaz de capturar a atenção do leitor até à última página. Todo o ambiente de intriga e suspeita que rodeia a Abadia à medida que as mortes se sucedem é retratado com mestria. Os pormenores são vitais nesta estória, pequenas pistas são fornecidas de uma forma subtil e, quando todos os detalhes se unem no final, compõem a imagem de uma cadeia de acontecimentos macabros e potenciados por uma mente profundamente perturbada.
Paralelamente, são abordadas questões sempre atuais da condição humana: a desigualdade social, o preconceito perante a homossexualidade, a ambição desmedida, a riqueza e poder desmesurados da Igreja, e a manipulação generalizada do povo. 
A premissa mais explorada nesta obra é, na verdade, a seguinte: será que Jesus Cristo riu? Algo nunca demonstrado pelos Evangelhos e um comportamento aparentemente incompatível com a dimensão da sua missão como Filho de Deus. Uma questão aparentemente irrelevante, quase jocosa, que o autor critica impiedosamente, mas que dá azo a um debate aceso e constituirá a chave para deslindar o enigma das sete mortes. É no âmbito destas discussões filosóficas entre os teólogos da época que o leitor certamente se sentirá mais perdido. Confesso que não domino grande parte das questões culturais abordadas e, por isso, foi necessária uma grande ginástica mental e alguma paciência para seguir a linha de pensamento descrita. De igual modo, a falta de tradução para as frases em latim constituiu outro entrave à leitura, na medida em que sinto que perdi grande parte da subtileza do discurso e da natureza das críticas que o autor pretendia transmitir. Mesmo assim, foi muito interessante acompanhar estes debates que fomentaram a minha reflexão crítica. Acredito que esta leitura será um verdadeiro deleite para quem aprecie – e seja versado em – disciplinas como a história, filosofia e religião.
As personagens são, também, o grande trunfo do autor, principalmente Guilherme de Baskerville. Recorrendo somente à sua mente perspicaz, o irmão Guilherme ensina ao jovem Adso a importância da reflexão e do pensamento lógico. É verdadeiramente impressionante a maneira como o seu intelecto produz saltos lógicos tão obscuros que deixarão qualquer leitor embasbacado. De igual modo, é um protagonista com o qual se desenvolve uma empatia instantânea, principalmente pelo papel de mentor que estabelece com Adso e os laivos de humor que caracterizam os seus momentos de orgulho perante as suas descobertas.
No entanto, para mim, a protagonista é sem dúvida a biblioteca da abadia, com todos os segredos que encerra. A alma de toda a obra, um verdadeiro labirinto do saber e a essência de todo o mal do qual a abadia padece. É através da biblioteca que Umberto Eco tece uma grande crítica à sociedade da época: será que o conhecimento deve ser acessível a todos ou deverá permanecer enclausurado num labirinto, disponível apenas para uma elite exclusiva?
É fantástico como um livro tão denso, repleto de conteúdos complexos, consegue, ao mesmo tempo, perpetuar um ritmo fluído e incentivar o leitor a virar as páginas na ânsia de desvendar os seus segredos. Uma leitura que aconselho vivamente aos amantes da história e filosofia, mas também a todos aqueles que se queiram deslumbrar com um enredo intrinsecamente delineado, onde o mais ínfimo detalhe constitui uma peça fulcral no mosaico de intrigas e enigmas que Umberto Eco magistralmente arquitetou.
22:56 Publicada por Unknown 6