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terça-feira, 24 de setembro de 2013

"Sapatos de Rebuçado" de Joanne Harris [Opinião Literária]

Título: Sapatos de Rebuçado
Autora: Joanne Harris
Editora: Edições Asa
Coleção: Trilogia Chocolate (nº2)

Sinopse:
Após ter abandonado a aldeia de Lansquenet-sur-Tannes, cenário de Chocolate, Vianne Rocher procura refúgio e anonimato em Paris, onde, juntamente com as suas filhas Anouk e Rosette, vive uma vida pacífica, talvez até mesmo feliz, por cima da sua pequena loja de chocolates. Não há nada fora de comum que as destaque de todos os outros. A tempestade que caracterizava a sua vida parece ter acalmado... Pelo menos até ao momento em que Zozie de l’Alba, a mulher com sapatos de rebuçado, entra de rajada nas suas vidas e tudo começa a mudar… 
Mas esta nova amizade não é o que parece ser. Impiedosa, retorcida e sedutora, Zozie de l’Alba tem os seus próprios planos - planos que vão despedaçar o mundo delas. E com tudo o que ama em jogo, Vianne encontra-se perante uma escolha difícil: fugir, tal como fez tantas outras vezes, ou confrontar o seu pior inimigo… 
Ela própria.

Opinião:
Neste segundo volume de uma trilogia tão doce como chocolate, acompanhamos Vianne Rocher, com uma nova identidade e novos desafios à espreita para perturbar a sua recente vida pacata e incógnita em Paris.  
Na verdade, a protagonista que tanto me encantou em Chocolate surge com uma personalidade completamente distinta. Vianne é neste volume uma mulher apagada, temerosa, sem qualquer réstia da vivacidade que a caracterizava. Apesar de entender a sua necessidade de fugir ao passado, nunca percebi completamente esta mudança de carácter tão súbita. Por conseguinte, acabou por se tornar numa personagem vazia e irritante.
Pelo contrário, adorei a oportunidade de explorar a personalidade de Anouk – filha de Vianne –, que neste livro já não é uma simples menina, é uma jovem a descobrir-se a si mesma e aos seus poderes.
Mas o verdadeiro foco da estória é Zozie, uma mulher intensa e enigmática, que fará tudo ao seu alcance para atingir os seus objetivos. Uma personagem que retrata precisamente a ilusão das aparências, que por detrás de uma imagem de amizade e dedicação, encerra um mundo de truques e segredos obscuros.
Quanto ao enredo, este pareceu-me algo desconexo, sem grande interesse ou objetivo final durante a primeira metade do livro, com alguns momentos um pouco forçados e que se arrastaram por demasiadas páginas. Ainda assim, a autora compensa com a reintrodução de Roux, e a sua relação com Vianne trouxe ternura, romance e um propósito à estória.
E claro, como posso negar o prazer de ler acerca da confeção de doces? A escrita é tão vívida, tão sensorial, que quase saboreio o chocolate ao folhear as páginas. Porém, após a conclusão desta leitura, não posso deixar de sentir que este segundo volume carece alguma da magia do primeiro, pecando pelo excesso de floreados sem grande substância. Ainda assim, aconselho a quem pretenda uma leitura leve, um romance delicioso, um breve sustento tanto para o estômago como para a alma.

23:44 Publicada por Unknown 7

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"Chocolate" de Joanne Harris [Opinião Literária]

Título: Chocolate
Autora: Joanne Harris
Editora: Edições Asa
Coleção: Trilogia Chocolate (nº1)

Sinopse:
A aldeia de Lansquenet-sur-Tannes tem duas novas moradores: Vianne Rocher, jovem mãe solteira, e a sua filha Anouk. Ambas correram mundo e querem agora estabelecer-se, pelo que Vianne pensa montar um negócio. Um negócio aromático e guloso mas, naquelas paragens, pouco comum: uma chocolataria com o nome de "La Céleste Praline".
Para a aldeia, "La Céleste Praline" e a sua encantadora proprietária são um sopro de ar fresco frente à tirania de Francis Reynaud, um jovem padre de uma austeridade a raiar o fanatismo, que não oculta o seu desagrado por um comércio demasiado sofisticado e "tentador", e que vê em Vianne um desafio à sua autoridade. Frente a ele, a jovem Vianne só pode apelar à alegria de viver das gentes de Lansquenet...
Chocolate é um repertório de sabores, descritos de uma maneira tão viva que quase se sentem; é também uma galeria de personagens ternos e cruéis, amáveis e odiosos, sempre intensos e credíveis. Mas é sobretudo um romance tão ameno, tão rico e variado, que deixará nos seus leitores uma impressão imorredoira.

Opinião:
Este é um romance que merece ser saboreado, uma vívida estimulação para todos os sentidos do leitor. Uma estória rica em gastronomia, intriga e espiritualidade, que suscitará uma reflexões profundas sobre a condição humana.
As personagens constituem um conjunto eclético de personalidades, uma caricatura vibrante de uma pequena comunidade. Vianne é uma protagonista forte, com crenças bem assentes e um carácter determinado. Sem dúvida a força motriz que dirige a evolução das restantes personagens, Vianne é uma mulher que sabe atingir o âmago das pessoas. A sua relação com a filha, Anouk, é simplesmente enternecedora, enquanto se debate com as saudades da sua falecida mãe e, paralelamente, com o ressentimento pela vida nómada que lhe foi imposta. Assim surge uma questão interessante sobre a essência da condição humana: o que será mais importante? Uma multitude de experiências, lugares, relações com inúmeras pessoas, em detrimento de uma existência constante? Ou finalmente assentar e aprofundar estas relações?
De igual modo, esta obra aborda a temática da religião versus espiritualidade, estabelecendo um contraste entre o fanatismo tirano do padre Francis Reynaud e os ideais esotéricos de Vianne. Francis é uma personagem odiosa, terrivelmente obtuso, um homem que, algo inconscientemente, prefere pregar o ódio em vez do amor pelo próximo.  
Porém, o ponto forte da narrativa consiste nas descrições dos alimentos, dos doces em particular, que são absolutamente deliciosas. Um aviso ao leitor: prepare-se para ser acometido por desejos irreversíveis dos doces mais improváveis, repletos de especiarias exóticas e ingredientes extravagantes. A narrativa é fluída, impregnada pelos cheiros e sabores de todas estas iguarias.
No entanto, no final da leitura senti-me algo desiludida, senti um vazio perante algumas pontas soltas e questões em aberto que a autora despachou sem grandes conclusões. Algumas personagens poderiam ter sido mais exploradas, enquanto alguns pontos da estória mereciam ser mais desenvolvidos. Por conseguinte, creio que lhe faltou algo para se tornar uma leitura verdadeiramente marcante, ainda que possua uma magia inegável.
20:41 Publicada por Unknown 2