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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

"Compaixão" de Jodi Picoult [Opinião Literária]

Título: Compaixão
Autora: Jodi Picoult
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Se o amor da sua vida lhe pedisse ajuda para morrer, que faria? O comandante da polícia de uma pequena cidade de Massachusetts, Cameron McDonald, faz a detenção mais difícil da sua vida quando o seu primo Jamie lhe confessa ter matado a mulher, que sofria de uma doença terminal, por compaixão. Agora, um intenso julgamento por homicídio coloca a cidade em alvoroço e vem perturbar um casamento estável: Cameron, colaborando na acusação contra Jamie, vê-se, de repente, em confronto com a sua mulher, Allie – fascinada pela ideia de um homem amar tanto a mulher a ponto de lhe conceder todos os desejos, até mesmo o de acabar com a vida dela. E quando uma atracção inexplicável leva a uma traição chocante, Allie vê-se confrontada com as questões sentimentais mais difíceis: quando é que o amor ultrapassa os limites da obrigação moral? E o que é que significa amar verdadeiramente alguém?

Opinião:
A premissa desta obra é fascinante. Como qualquer estória criada por Jodi Picoult, a temática abordada é atual, pujante e polémico. A eutanásia é provavelmente uma das grandes questões da sociedade moderna, em que o prolongamento da vida através dos avanços na medicina não se traduz necessariamente num aumento da qualidade de vida. Como futura profissional de saúde, não é eticamente correto colocar esta questão. Como ser humano, é impossível não me questionar acerca do sofrimento dos doentes terminais, do desespero que leva alguém a considerar a morte como um alívio. Mas seriamos capaz de tomar esta decisão por alguém que amamos? Claramente um tópico difícil, para o qual a autora demonstra diversas perspetivas, sem nunca emitir um juízo final, instigando uma reflexão profunda acerca dos limites do amor e do valor da dignidade humana.
Este assunto é retratado pela visão de Jamie, um homem perdidamente apaixonado pela esposa em estado terminal, que cede ao seu desejo e acaba com o seu sofrimento. A caracterização desta personagem é cativante, sendo apresentado como um homem devastado pela dor perante a morte da mulher. Inicialmente acreditando que tomou a melhor decisão, Jamie percorrerá um percurso intenso na sua mente para finalmente aceitar que talvez o amor não justifique tudo. Ainda que discordemos com a perspetiva de Jamie, as questões levantadas ao longo da estória levarão o leitor a refletir sobre os seus próprios valores e convicções. Porém, estranhamente, nunca obtemos a perspetiva de Maggie. Penso que teria sido uma abordagem mais completa se tivesse incluído o ponto de vista da doente terminal.
Infelizmente, esta temática promissora é desperdiçada num enredo secundário (e que, no final, acaba por dominar toda a narrativa) sobre um casamento que vai ser posto à prova pela sombra do adultério. Esta até poderia ter sido uma visão interessante, honesta e crua das dificuldades inerentes a um casamento, se as personagens não fossem tão absurdamente detestáveis! Cam é provavelmente o pior pesadelo de qualquer esposa: mentiroso, condescendente, egoísta. Mesmo antes de começar o seu caso extramarital com Mia, já sentia pena de Allie pelo simples facto de ter que o aturar. Além disso, a maneira como a relação entre Cam e Mia começa é simplesmente estranha e pouco credível. Embora a autora tente incluir alguns momentos redentores para Cam, não consegui de maneira nenhuma apreciar nem um bocadinho desta personagem.
E quanto a Allie? Basicamente passei o livro todo à espera que esta mulher deixasse de ser tão ingénua, tão passiva, tão solícita a cumprir os desejos do marido. Quando finalmente descobre a sua traição sofre uma transformação drástica e finalmente pensei que veria uma mulher forte, independente, renascida do sofrimento que o casamento lhe impôs. Contudo, esta mudança dura praticamente dois dias e volta tudo ao início. Foi uma desilusão completa.
Talvez a intenção da autora fosse estabelecer um paralelismo entre a relação de Jaime e Maggie, tão perfeita mas que culmina em desgraça, e o casamento de Allie e Cam que, apesar das dificuldades enfrentadas, mantém-se intacto. No entanto, foi simplesmente frustrante observar certas personagens com atitudes horrendas a safarem-se facilmente e sem grandes consequências. Se Jodi Picoult tencionava gerar alguma simpatia no leitor falhou redondamente.
A sua escrita, porém, mantém-se dinâmica, acessível e fluída, com a exceção dos inúmeros flashbacks relacionados com a Escócia sem grande relevância e que parecem inseridos no meio dos capítulos apenas para encher as páginas.
No fundo, a autora tentou construir duas estórias demasiado complexas para serem trabalhadas em simultâneo, acabando por diluir o impacto da temática inicial – a eutanásia – em virtude de um drama sem grande interesse. Uma prestação fraca de uma autora que já comprovou ser bem melhor.
13:12 Publicada por Unknown 13

domingo, 18 de agosto de 2013

"Equador" de Miguel Sousa Tavares [Opinião Literária]

Título: Equador
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Quando naquela manhã chuvosa de Dezembro de 1905, Luís Bernardo é chamado por El-Rei D. Carlos a Vila Viçosa, não imaginava o que o futuro lhe reservava. Não sabia que teria de trocar a sua vida despreocupada na sociedade cosmopolita de Lisboa por uma missão tão patriótica quanto arriscada na distante ilha de S. Tomé. Não esperava que o cargo de governador e a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças o lançassem numa rede de conflitos e interesses com a metrópole. E não contava que a descoberta do amor lhe viesse mudar a vida.
Equador é um retrato brilhante da sociedade portuguesa nos últimos dias da Monarquia, que traça um paralelo entre os serões mundanos da capital e o ambiente duro e retrógrado das colónias.
É com esta história admirável, comovente e perturbadora, que Miguel Sousa Tavares inaugura a sua incursão no romance.

Opinião:
Equador consiste numa extraordinária análise histórica, política e social de Portugal e das suas colónias em 1905. Esta obra explora alguns dos episódios mais marcantes da época, nomeadamente a descolonização, o ambiente nas colónias, a economia internacional, e o golpe de estado e subsequente implantação da república. De uma forma pertinente, o autor aborda a mentalidade da burguesia portuguesa da época, que justificava a violação da dignidade humana nas colónias segundo os seus interesses.
O autor não se poupou na pesquisa que fez, demonstrando uma abordagem muito completa da época. O contexto histórico é brilhantemente explorado e organizado de uma forma coerente, interessante e acessível. Para quem, como eu, não possui conhecimentos muito vastos sobre este tema foi sem dúvida extremamente esclarecedor.
O protagonista, Luís Bernardo, é uma personagem complexa, um homem com convicções morais fortes e inovadoras para a época. O que mais me encanta neste protagonista é, sem dúvida, o seu humanismo. É empolgante assistir à sua luta pelos direitos humanos nas colónias, mesmo quando parece ser impossível o seu sucesso. É também interessante observar a espiral descendente em que embarca perante a sua missão penosa e solitária, quando os seus ideais chocam brutalmente contra a realidade. É uma personagem em constante luta interior entre a razão e os seus desejos, entre cumprir o seu dever ou ceder aos caprichos do destino.
Contudo, este livro carece de personagens femininas interessantes. São todas ou demasiado planas e sem interesse, ou absurdamente odiosas, em particular Ann, que achei calculista e manipuladora.
A escrita é agradável e acessível, mas os longos capítulos, parágrafos extensos e passagens particularmente aborrecidas, perturbaram o ritmo da narrativa. Por conseguinte, a leitura poderia ter sido mais fluída. No entanto, as descrições de São Tomé são magníficas! As paisagens, o clima, a sensualidade inerente, todos estes elementos conspiram para uma maior intensidade sensorial: sente-se o pulsar de África em cada linha!
Para quem aprecia romances históricos aconselho vivamente a embarcarem nesta viagem ao passado detalhada e emocionante, com uma estória de amor complexa e tortuosa incapaz de deixar o leitor indiferente! 
18:09 Publicada por Unknown 8

sábado, 17 de agosto de 2013

"O Espelho Quebrado" de Brian Keaney [Opinião Literária]

Título: O Espelho Quebrado
Autor: Brian Keaney
Editora: Gailivro
Coleção: As Promessas do Dr. Sigmundus (nº2)

Sinopse:
Governada pelo tirano Dr. Sigmundus, Gehenna é um país onde as leis devem ser obedecidas sem questionar e onde ninguém pensa por si. Até sonhar é proibido.
A partir do momento em que Dante Cazabon, um órfão sem amigos, descobre o Odílio, uma força com o poder de parar o tempo e de modificar o tecido do universo, ele passa a liderar uma rebelião que o irá conduzir às fronteiras da vida e da morte, assim como ao coração do Mal.
Nas profundezas do Odílio, uma nova espécie de Mal está prestes a nascer: o Espelho Quebrado. E apenas Dante o poderá deter. Mas, para o conseguir, ele irá confrontar-se com uma escolha terrível.
Dante está a monte, Bea é prisioneira e Ezekiel encontra-se ferido. As coisas não parecem correr nada bem para os Púca...
...E o cenário irá piorar.

Opinião:
Para a leitura deste segundo volume tinha grandes expectativas. Não esperava, porém, que a desilusão fosse tão grande. Esta é uma estória desconexa, confusa e apressada, que me retirou toda a motivação para ler.
Os protagonistas mantêm-se unidimensionais e perderam todo o encanto. Safam-se demasiado rápido de qualquer alhada, sem grande sacrifício. Novas personagens são adicionadas, que pouco ou nada acrescentam à estória e apenas servem como adereços.
A estória não acrescenta nada de novo, os acontecimentos sucedem-se rapidamente e por vezes sem grande coerência lógica. O autor não parece capaz de escrever com emoção e, consequentemente, eu, como leitora, não senti qualquer emoção a lê-lo! Onde está o medo perante os planos malévolos do vilão, a tristeza perante a morte de personagens, a felicidade quando o bem triunfa? A questão é essa, não está lá nada disso.
A escrita básica, sem descrições e diálogos que soam a falso apenas serviram para potenciar o sabor amargo com que esta leitura me deixou. Sem querer ser maldosa mas o único aspeto positivo deste livro é o facto de ser pequeno, pois poupou-me algumas horas de tortura literária. Provavelmente apenas vou ler o terceiro volume desta saga porque já o comprei, quando me sentir particularmente masoquista.  
21:03 Publicada por Unknown 0

"Insurgente" de Veronica Roth [Opinião Literária]

Título: Insurgente
Autora: Veronica Roth
Editora: Porto Editora
Coleção: Divergente (nº2)

Sinopse:
A tua escolha pode transformar-te - ou destruir-te. Mas qualquer escolha implica consequências, e à medida que as várias fações começam a insurgir-se, Tris Prior precisa de continuar a lutar pelos que ama - e por ela própria.
O dia da iniciação de Tris devia ter sido marcado pela celebração com a fação escolhida. No entanto, o dia termina da pior forma possível. À medida que o conflito entre as diferentes fações e as ideologias de cada uma se agita, a guerra parece ser inevitável. Escolher é cada vez mais incontornável... e fatal.
Transformada pelas próprias decisões mas ainda assombrada pela dor e pela culpa, Tris terá de aceitar em pleno o seu estatuto de Divergente, mesmo que não compreenda completamente o que poderá vir a perder.
A muito esperada continuação da saga Divergente volta a impressionar os fãs, com um enredo pleno de reviravoltas, romance e desilusões amorosas, e uma maravilhosa reflexão sobre a natureza humana.

Opinião:
Após Divergente, o primeiro volume de uma saga que introduz um mundo distópico segregado em cinco fações, não esperava uma continuação tão fantástica, envolvente, absolutamente viciante!
Perante um clima de grande tensão, em plena guerra entre fações, esta sociedade anteriormente tão perfeita desfaz-se em bocados enquanto fações são destruídas e pessoas mortas para satisfazer a ambição e arrogância dos seus líderes. Por conseguinte, as personagens surgem mais duras, mais determinadas, sem lugar para piedade ou misericórdia se pretendem sobreviver.
Também Tris está mudada. Cega de dor e culpa pelas escolhas que tomou no final do volume anterior, esta protagonista terá de lutar contra os seus medos e inseguranças. Tris é, para mim, a personagem mais realista de todas, retratando a imperfeição da humanidade. Mais do que um produto da sua educação na Abnegação, mais do que a sociedade espera de si enquanto Intrépida, Tris é Divergente e encerra em si mesma coragem e determinação, medos e insegurança, egoísmo e uma tremenda capacidade de amar. No fundo, uma personalidade holística, a essência do ser humano.
Quatro, por sua vez, mantém o seu encanto, ainda que, na minha opinião, tenha sido ultrapassado por Tris neste volume. A ligação entre ambos é testada inúmeras vezes ao longo da estória, trazendo profundidade a esta relação.
A componente romântica não é, contudo, o foco desta estória. O enredo aprofunda cada vez mais a origem desta sociedade distópica, desvendando pouco a pouco os segredos e mentiras que a construíram. São finalmente exploradas a fundo as restantes fações, levando o leitor a perceber o seu funcionamento interno. A narrativa é intensa, avassaladora, repleta de ação, reviravoltas surpreendentes e revelações chocantes. A autora não tem receio de fazer as suas personagens sofrer, tornando esta uma obra dura, cruelmente realista.
Esta é uma das poucas vezes em que posso dizer que um segundo volume me entusiasmou mais do que o primeiro! Veronica Roth superou em grande medida as minhas expectativas, elevando a estória para um patamar mais obscuro e intenso. E o desenlace final? Extraordinário! Sem querer revelar demasiado (e acreditem, há muito para revelar), posso tirar uma conclusão deste final: nada nesta estória voltará a ser como dantes! 
17:22 Publicada por Unknown 2

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

"Mrs. McGinty Está Morta" de Agatha Christie [Opinião Literária]

Título: Mrs. McGinty Está Morta
Autora: Agatha Christie
Editora: Edições Asa
Coleção: Obras de Agatha Christie (nº57) / Hercule Poirot (nº27)

Sinopse:
Mrs. McGinty está morta.
Como é que ela morreu?
De joelhos como eu.
Assim reza um jogo infantil… infelizmente para a verdadeira Mrs. McGinty, o que deveria ser apenas uma brincadeira de crianças assumiu contornos bem reais. Foi encontrada morta, os seus aposentos destruídos. O assassino procurava algo com tal desespero que chegou a levantar as tábuas do soalho. O que terá motivado tão bárbaras acções?
Poderá a resposta estar num recorte de jornal que a vítima guardara dois dias antes da sua morte? Com um assassino desesperado à solta, Hercule Poirot terá de se manter vivo a todo o custo para descobrir… 

Opinião:
Este é mais um excelente exemplar da mestria de Agatha Christie em criar um homicídio profundamente enigmático, um verdadeiro desafio para as “celulazinhas cinzentas” do brilhante detetive Hercule Poirot. Contudo, este crime tem uma particularidade: o assassino já foi descoberto e condenado mas será este o verdadeiro culpado? Cabe a Poirot explorar as dinâmicas de uma pequena aldeia e descobrir um assassino que se esconde no meio da pacatez desta comunidade.
O protagonista, Hercule Poirot, é o ponto forte em qualquer das suas estórias. Para além da genialidade do seu intelecto, as suas idiossincrasias são tremendamente divertidas! Neste livro em particular, Poirot é forçado a instalar-se numa pensão mal gerida, o que origina episódios muito caricatos devido à incredulidade do detetive perante tanta incompetência doméstica! De igual modo, também visitante na aldeia e hóspede de uma das patroas da vítima, encontra-se Ariadne Oliver, uma personagem que também adiciona bastante humor a qualquer diálogo.
O desenlace final foi em certa medida previsível, com exceção de alguns detalhes. Porém, esta é mais uma das obras de Christie com os ingredientes perfeitos para um policial: mistério, ação e uma boa dose de humor! 
16:23 Publicada por Unknown 7

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Deusa do Mar" / "Renascida" de P.C. Cast [Opinião Literária]


Título: Deusa do Mar / Renascida
Autora: P.C. Cast
Editora: Edições Asa
Coleção: Série das Deusas (nº1)

Sinopse:
Christine Canady, CC, é sargento da Força Aérea e no dia do seu 25º aniversário, já depois de uns quantos copos de champanhe a mais, faz uma dança em cima do balcão do bar pedindo à deusa da terra um pouco mais de magia na sua vida.
No dia seguinte, o seu voo com destino ao médio oriente, num C-130, termina num desastre com o avião a despenhar-se no Oceano. Quando pensava que o seu destino estava traçado e a sua morte era certa, ela apercebe-se de que está a respirar debaixo de água e se encontra perante a mais bela sereia que poderia imaginar.
Concedendo à sereia o desejo de ser humana, elas trocam de consciência e em breve CC vê-se imersa nas intrigas da corte das sereias, e com dificuldade em resistir aos encantos do pretendente real.
Mas, o desejo de voltar a terra vai fazer com que CC se cruze com o cavaleiro dos seus sonhos, vendo-se envolvida num arrebatador triângulo amoroso.

Opinião:
Esta é uma recriação abstrata da estória da Pequena Sereia, abordando uma jovem mulher, sargento na Força Aérea, que durante um desastre aéreo troca de corpo com a filha de Poseidon e assume uma nova identidade como sereia. Um conceito interessante, uma nova visão de um conto marinho que prometia romance, intriga e humor mas que não atingiu o seu potencial.
Relativamente à narrativa marítima, as descrições constituem a melhor parte do livro! O leitor é levado numa jornada visualmente intensa, com belíssimas descrições do mundo marinho, constituindo o cenário ideal para a temática que a autora se propôs a explorar. A própria mitologia dos deuses e das sereias é interessante e apelativa.
Contudo, a autora rapidamente perde o rumo à estória, não aproveitando os melhores atributos do próprio ambiente exótico que criou. Na verdade, um livro que se deveria focar no mar e na vida de uma sereia torna-se numa fraca tentativa de reflexão sobre a religião e a visão da mulher como fonte do pecado. As cenas no mosteiro foram despropositadas, sem grande interesse e monótonas. O único alívio era quando a protagonista regressava ao mar, aí residia a verdadeira magia da estória!
Com uma escrita acessível e fluída mas com personagens tão simples e unidimensionais e uma narrativa que perde o ritmo e interesse na grande maioria dos capítulos – com a notória exceção dos episódios no mar –, este livro só pode ser classificado como uma amarga desilusão. Uma obra com tanto potencial que merecia uma execução bem melhor!
15:59 Publicada por Unknown 4

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"Chocolate" de Joanne Harris [Opinião Literária]

Título: Chocolate
Autora: Joanne Harris
Editora: Edições Asa
Coleção: Trilogia Chocolate (nº1)

Sinopse:
A aldeia de Lansquenet-sur-Tannes tem duas novas moradores: Vianne Rocher, jovem mãe solteira, e a sua filha Anouk. Ambas correram mundo e querem agora estabelecer-se, pelo que Vianne pensa montar um negócio. Um negócio aromático e guloso mas, naquelas paragens, pouco comum: uma chocolataria com o nome de "La Céleste Praline".
Para a aldeia, "La Céleste Praline" e a sua encantadora proprietária são um sopro de ar fresco frente à tirania de Francis Reynaud, um jovem padre de uma austeridade a raiar o fanatismo, que não oculta o seu desagrado por um comércio demasiado sofisticado e "tentador", e que vê em Vianne um desafio à sua autoridade. Frente a ele, a jovem Vianne só pode apelar à alegria de viver das gentes de Lansquenet...
Chocolate é um repertório de sabores, descritos de uma maneira tão viva que quase se sentem; é também uma galeria de personagens ternos e cruéis, amáveis e odiosos, sempre intensos e credíveis. Mas é sobretudo um romance tão ameno, tão rico e variado, que deixará nos seus leitores uma impressão imorredoira.

Opinião:
Este é um romance que merece ser saboreado, uma vívida estimulação para todos os sentidos do leitor. Uma estória rica em gastronomia, intriga e espiritualidade, que suscitará uma reflexões profundas sobre a condição humana.
As personagens constituem um conjunto eclético de personalidades, uma caricatura vibrante de uma pequena comunidade. Vianne é uma protagonista forte, com crenças bem assentes e um carácter determinado. Sem dúvida a força motriz que dirige a evolução das restantes personagens, Vianne é uma mulher que sabe atingir o âmago das pessoas. A sua relação com a filha, Anouk, é simplesmente enternecedora, enquanto se debate com as saudades da sua falecida mãe e, paralelamente, com o ressentimento pela vida nómada que lhe foi imposta. Assim surge uma questão interessante sobre a essência da condição humana: o que será mais importante? Uma multitude de experiências, lugares, relações com inúmeras pessoas, em detrimento de uma existência constante? Ou finalmente assentar e aprofundar estas relações?
De igual modo, esta obra aborda a temática da religião versus espiritualidade, estabelecendo um contraste entre o fanatismo tirano do padre Francis Reynaud e os ideais esotéricos de Vianne. Francis é uma personagem odiosa, terrivelmente obtuso, um homem que, algo inconscientemente, prefere pregar o ódio em vez do amor pelo próximo.  
Porém, o ponto forte da narrativa consiste nas descrições dos alimentos, dos doces em particular, que são absolutamente deliciosas. Um aviso ao leitor: prepare-se para ser acometido por desejos irreversíveis dos doces mais improváveis, repletos de especiarias exóticas e ingredientes extravagantes. A narrativa é fluída, impregnada pelos cheiros e sabores de todas estas iguarias.
No entanto, no final da leitura senti-me algo desiludida, senti um vazio perante algumas pontas soltas e questões em aberto que a autora despachou sem grandes conclusões. Algumas personagens poderiam ter sido mais exploradas, enquanto alguns pontos da estória mereciam ser mais desenvolvidos. Por conseguinte, creio que lhe faltou algo para se tornar uma leitura verdadeiramente marcante, ainda que possua uma magia inegável.
20:41 Publicada por Unknown 2

terça-feira, 13 de agosto de 2013

"Grita Por Mim" de Karen Rose [Opinião Literária]

Título: Grita Por Mim
Autor: Karen Rose
Editora: Bertrand Editora
Coleção: Trilogia Daniel Vartanian (nº2)

Sinopse:
Conduzida apenas por um punhado de imagens, a investigação do Inspector Daniel Vartanian leva-o até ao passado sombrio da sua própria família, e para o reino duma mente mais sinistra do que ele jamais poderia imaginar. Mas a sua busca também o conduz até Alex Fallon, uma bela enfermeira, cujo conturbado passado remete para o seu próprio. Enquanto Daniel se apaixona por Alex, descobre que também ela é objecto do assassino obcecado. Deste modo, vê-se confrontado com a descoberta da identidade de um crime macabro, mas também com a salvação da vida da mulher que começou a amar.

Opinião:
Situado apenas algumas semanas após o desenlace do volume anterior, neste livro acompanhamos Daniel Vartanian, uma personagem previamente introduzida e que alcança o seu protagonismo neste volume. Irmão do sádico serial killer que aterrorizou a cidade de Philadelphia em Morre Por Mim, Daniel é um detetive encarregado de resolver uma série de homicídios que parecem relacionados com o assassinato de uma jovem há 13 anos na sua cidade natal. Atormentado pelos crimes do seu irmão, Daniel terá de enfrentar o seu passado para conseguir deslindar este caso. Também Alex Fallon, uma enfermeira cuja irmã gémea foi a vítima de homicídio há 13 anos, é impelida a confrontar novamente o evento que alterou drasticamente o rumo da sua vida há tantos anos atrás.
Tanto Daniel como Alex são personagens bem delineadas, cativantes e realistas. Enquanto Daniel é reservado e discreto, Alex é uma mulher forte e determinada. Ambas são personagens complexas e o desenvolvimento da sua relação foi apaixonante. À medida que lutam contra os demónios que assombram os seus respetivos passados, encontram um no outro a estabilidade emocional para resolver o mistério que os ameaça atualmente. Mais uma vez Karen Rose prima por adicionar uma pitada de romance absolutamente delicioso a uma estória policial.
Contudo, o enredo careceu a intensidade do volume anterior. O suspense acaba por se perder no meio de uma narrativa algo confusa. Perto do final temos duas investigações paralelas: a busca pela identidade do assassino em série e o mistério que envolve os líderes da comunidade de Dutton. Obviamente, as ligações entre estes dois mistérios e a quantidade de personagens envolvidas apenas contribuem para a complexidade do enredo que, por conseguinte, se torna difícil de seguir e interrompe a fluidez da leitura.  
Em suma, fiquei algo desiludida com esta obra, na medida em que esperava ser arrebatada, tendo ficado apenas com a sensação agridoce de um policial com potencial para um maior suspense e uma narrativa mais estimulante, apesar da componente romântica permanecer apelativa. O desenlace final deixa certas questões em aberto para abrir o apetite para o próximo volume, o qual espero sinceramente que supere as minhas expectativas.
23:52 Publicada por Unknown 6

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón [Opinião Literária]

Título: O Jogo do Anjo
Autor: Carlos Ruiz Záfon
Editora: Dom Quixote
Coleção: O Cemitério dos Livros Esquecidos (nº2)

Sinopse:
Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais. 
Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral.

Opinião:
Com este volume regressei à Barcelona nas primeiras décadas do século XX, uma cidade tenebrosa, capaz de uma crueldade imensa, como se do sofrimento se alimentasse. Regressei às suas ruas labirínticas, aos segredos que encerra por detrás de fachadas destruídas, e ao inolvidável Cemitério dos Livros Esquecidos. Estabelecido como uma prequela de A Sombra do Vento, reencontramos nestas páginas a família Sempere e a sua livraria enaltecendo a dedicação e paixão aos livros. Afinal, este é sobretudo um livro sobre o poder e a magia da literatura.
O protagonista, David Martín, é um jovem escritor amargurado que, após diversos insucessos no mundo editorial, é incumbido por um enigmático editor, mediante uma extraordinária quantia monetária, de produzir um livro capaz de fundar uma nova religião, enquanto se debate com um eterno e malogrado amor. Pelo meio surge Isabella, uma espécie de discípula na área da escrita e sua ajudante, uma jovem irreverente, determinada e inteligente. A amizade improvável entre ambos foi o que mais me encantou nesta obra, devido ao genuíno carinho mútuo que demonstram, apesar de todas as discussões e tiradas sarcásticas que atiram constantemente um ao outro.
O autor não foge ao ambiente gótico retratado no volume anterior, elevando-o a níveis ainda mais dramáticos. A atmosfera de terror perpetua-se à medida que as mortes, desgraças e revelações nefastas surgem em catadupa, num ritmo vertiginoso que apela leitor que abandone a realidade e se sujeite ao pesadelo. Este clima de paranoia e maldição é avassalador, impossível de ser ignorado. Por diversas vezes senti as emoções à flor da pele, principalmente em virtude da escrita notoriamente cinematográfica de Zafón. É um verdadeiro encanto para todos os sentidos, na medida em que adota uma narrativa melodiosa, soberba, quase poética!
Ainda assim, o desenlace misterioso, praticamente em aberto, poderá não agradar a muitos leitores. Fiquei um pouco frustrada pelo final abrupto mas ao mesmo tempo encantada por todas as possibilidades que encerra. Nesse aspeto, este livro é genial em fomentar a discussão e análise acerca do significado desta estória, aberta a interpretações.
Contrariamente ao que esperava, este segundo volume encantou-me mais que o anterior, talvez por me ter apegado mais às personagens, de maneira que vivi, sofri e rejubilei com elas. Mais uma vez o autor prova com esta obra extraordinária que as palavras têm poder, que influenciam profundamente as nossas vidas, como que se contivessem verdadeira magia! 
23:46 Publicada por Unknown 0

terça-feira, 30 de julho de 2013

"Um Cappuccino Vermelho" de Joel G. Gomes [Opinião Literária]

Título: Um Cappuccino Vermelho
Autor: Joel G. Gomes
Editora: Edição de autor

Sinopse:
As pessoas que conhecem Ricardo Neves dividem-se em dois grupos: os que o conhecem como autor de policiais e os que o conhecem como assassino profissional.
Ricardo sempre cuidou para que estas duas facetas da sua vida não misturassem. Tudo se complica quando recebe uma lista de alvos demasiado próximos do seu mundo de escritor. A colisão torna-se inevitável e Ricardo não tem como a impedir.

João Martins é um escritor com prazos para cumprir e sem ideias para desenvolver. Até que tem a ideia de escrever sobre um escritor que é também assassino profissional.

A surpresa acontece quando pessoas à sua volta começam a morrer tal e qual ele descreve no seu livro. A dúvida surge de imediato: estarão as mortes a acontecer porque ele as escreve ou será ele um mero narrador de eventos predestinados a acontecer?

Opinião:
Esta é uma estória com uma premissa interessante, apesar de não ser propriamente original. Apreciei a estrutura bastante dinâmica, em que a intriga encerra várias dimensões, umas dentro das outras. O autor explora isto de uma maneira complexa e intrigante, podendo ser algo confuso.
Neste contexto, existe uma constante alternância de perspetivas bastante distintas. Por um lado surge Ricardo, um assassino impiedoso, frio, arrogante e egocêntrico, que valoriza o seu trabalho acima de tudo. Por outro lado, temos João, um escritor dedicado à sua arte, cuja sanidade começa a ser questionada quando aquilo que escreve se torna realidade. Ambos são personagens credíveis e interessantes, ainda que por vezes as tenha sentido um pouco unidimensionais.
O escritor retrata bem as idiossincrasias do quotidiano português, apesar de carecer nas descrições do mundo que rodeia estas personagens. Acredito que com a adição de mais pormenores acerca do ambiente seria possível consolidar toda a ação e situar melhor o leitor. Pelo contrário, as descrições exaustivas de certas rotinas (a história do café, as refeições de Ricardo) são dispensáveis. Estas passagens necessitavam de um ritmo mais rápido, enquanto as cenas de ação e os homicídios beneficiariam de uma maior descrição e detalhes para potenciar a emoção e o suspense.
A escrita, por sua vez, é bastante simples e acessível, algo cinematográfica e sem floreados ou subterfúgios. Gostei deste aspeto, desta escrita direta e crua que torna a estória bem mais sombria. No fundo, foi uma leitura bastante fluída, aprazível mas que carece alguns pontos-chave para se tornar memorável. 
21:21 Publicada por Unknown 0

"A Cidade de Vidro" de Cassandra Clare [Opinião Literária]

Título: A Cidade de Vidro
Autora: Cassandra Clare
Editora: Planeta
Coleção: Caçadores de Sombras (nº3)

Sinopse:
Para salvar a vida da mãe, Clary tem de ir à Cidade de Vidro, o lar ancestral dos Caçadores de Sombras - não a incomoda que a entrada nesta cidade sem autorização seja contra a Lei e que violá-la possa significar a morte. Piorando mais a situação, ela vem a saber que Jace não a quer lá e que Simon foi encarcerado na prisão pelos Caçadores de Sombras que suspeitam de um vampiro que tolera a luz do Sol.
Ao tentar descobrir mais pormenores sobre o passado da sua família, Clary encontra um aliado no misterioso Sebastian. Com Valentine a reunir toda a força do seu poder para destruir de uma vez por todas os Caçadores de Sombras, a única possibilidade de estes o derrotarem é combater ao lado dos seus eternos inimigos. Mas podem os Habitantes do Mundo-à-Parte e os Caçadores de Sombras pôr de lado o seu ódio mútuo e aliarem-se? Embora Jace compreenda que está pronto a arriscar tudo por Clary, poderá ela utilizar os seus poderes recentes para ajudar a socorrer a Cidade de Vidro - custe o que custar?

Opinião:
Neste terceiro volume de uma saga extraordinária da fantasia urbana, o leitor é finalmente transportado para a mística e fascinante cidade de Idris, a capital do mundo dos Caçadores de Sombras. Este é um cenário mágico, um paraíso supostamente seguro e idílico para todos os que combatem as forças demoníacas. Mas uma ameaça iminente, protagonizada por Valentine, rapidamente revelará as fraquezas deste refúgio e colocará em risco as vidas e os futuros dos Caçadores de Sombras.
O enredo não poderia, pois, ser mais aliciante. A partir da segunda metade do livro, torna-se impossível parar. As revelações surgem em catadupa, o ritmo é alucinante e a adrenalina ao rubro! Ação, mistério, sacrifício são palavras-chave neste desenlace final. Este não deixa de ser previsível (nada surpreendente tendo em conta o público-alvo), embora não possa negar a existência de alguns momentos mais sombrios e uma certa tragédia que me surpreenderam bastante. A autora fornece todas as explicações necessárias, deixando todas as pontas soltas dos volumes anteriores bem atadas (o que me leva a inquirir acerca da necessidade e pertinência dos livros que escreveu a seguir, confesso que não sinto grande entusiasmo perante a perspetiva de os ler quando este volume terminou de uma forma tão perfeitinha).
Mais ainda, todo o leque de personagens está bem mais maduro e explorado, sendo que mesmo as personagens secundárias têm os seus momentos de destaque. É dado mais ênfase às personagens adultas (um pouco menosprezadas nos volumes anteriores), explorando os seus passados e as suas ligações.
A única personagem que me desiludiu foi Clary. Tenho que confessar: ela não é de todo uma protagonista muito interessante. Na maioria das vezes limita-se a fazer precisamente o oposto do que lhe dizem, sem ponderar as consequências dos seus atos. No fundo, acaba por ser uma heroína acidental e algo passiva. Esperava que evoluísse mais neste volume, o que, para mim, não aconteceu.
Por outro lado, Jace continua irreverente, destemido e enigmático, apesar de finalmente termos acesso a o seu lado mais emocional. As suas tiradas sarcásticas são fabulosas e extremamente divertidas, incluindo os seus diálogos com Simon. Este, por sua vez, é uma personagem com progressivo destaque ao longo da obra, que neste último volume foi capaz de me encantar. Não percebo por que demorei tanto tempo a criar empatia com Simon, mas agora já é uma das minhas personagens favoritas nesta saga. Neste sentido, também não posso deixar de mencionar Alec e Magnus Bane, cujo romance improvável se tornou num dos meus casais favoritos de sempre!
Este foi o culminar de uma estória muito apelativa e bem delineada, apresentada numa linguagem simples e acessível ao público-alvo a que está direcionada. A sua leitura foi sem dúvida rápida, descontraída e cativante. Aconselho vivamente esta saga aos fãs do género! 
00:04 Publicada por Unknown 5

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Vozes do Passado" de Nora Roberts [Opinião Literária]

Título: Vozes do Passado
Autora: Nora Roberts
Editora: Ulisseia

Sinopse:
Numa tarde quente de Julho, um operário que trabalhava num estaleiro de construção em Antietam Creek golpeia com a enxada um determinado ponto do solo – e atinge um crânio humano com cerca de 5000 anos. A descoberta suscita curiosidade e, como não podia deixar de ser, alguma controvérsia. E irá também mudar de forma imprevisível a vida de uma mulher…
A arqueóloga Callie Dunbrook sabe, é claro, imensas coisas a respeito do passado. Mas é o seu próprio passado que irá agora ser escrutinado e posto em causa. Escolhida por razoes de competência para dirigir a estação arqueológica de Antietam Creek, ela vai aí enfrentar vários perigos – já que a sombra da morte e do infortúnio parece planar sobre aquele local, que muitos aliás dizem estar amaldiçoado. Pouco a pouco, redescobre uma paixão que pressente ser também perigosa ao ter de colaborar, nesse seu novo trabalho, com Jake Graystone, o irritante mas irresistível ex-marido. E quando finalmente uma estranha mulher a aborda, afirmando conhecer um segredo a respeito da sua infância, há questões surpreendentes e inquietantes relativas à sua própria identidade que não podem ser ignoradas.
À medida que procura respostas para todas as suas dúvidas, Callie irá descobrir que alguns enganos e algumas mágoas se não deixam facilmente sepultar. E que há quem esteja disposto a tudo para que a verdade nunca seja descoberta.

Opinião:
Ler uma obra de Nora Roberts é sentir que regressamos àquele lugar especial e aconchegante, uma leitura confortável, repleta de romance, mistério e sedução. Nesta obra, a autora explora a forma como os segredos do passado voltam sempre para nos assombrar, tendo a possibilidade de destruir tudo aquilo que construímos para nós próprios.
Callie, a protagonista, terá de aprender este facto da pior maneira possível: descobre que foi adotada e, como se não fosse suficientemente chocante, que foi raptada quando ainda era uma criança. Assim, Callie encontra-se dividida entre a lealdade para com os seus pais adotivos, que nada sabiam da sua origem ilegal, e a sua família biológica, uma família para sempre marcada pelo trauma do seu desaparecimento. Adorei a abordagem a este tema tão sensível, retratando fielmente o sofrimento de uma mãe que desconhece o paradeiro da sua filha, o trauma de um irmão que se sente responsável pelo desaparecimento da irmã mais nova que jurou proteger, e o tormento de um pai que nada consegue fazer para manter a sua família unida. Esta é a estória do destino interrompido de uma família, para sempre perdido nas malhas da história, e que nunca poderá regressar.
Para embelezar todo este cenário dramático, a componente romântica desta estória certamente não desilude. Callie e Jake são um casal um pouco atípico para esta autora: divorciados, colegas de profissão obrigados a colaborar, apesar de toda a tensão entre ambos. Embora sejam extremamente teimosos, determinados e por vezes absurdamente egocêntricos, estes dois são personagens impossíveis de odiar, cujas intenções são fundamentalmente boas mas cuja dificuldade em comunicarem os seus verdadeiros sentimentos me deixou algo exasperada. Afinal, bastaria uma conversa honesta para finalmente se aperceberem que o amor que os unia nunca deixou de existir. Ainda assim, os diálogos entre ambos são bastante divertidos, precisamente pelas suas atitudes teimosas.
Por outro lado, a autora apresenta-nos a outro casal: Doug e Lana. O primeiro carrega consigo a culpa pelo desaparecimento da irmã, enquanto Lana tenta ultrapassar a morte súbita do seu marido e providenciar uma infância feliz para o seu filho. Apreciei bastante a dinâmica deste casal, especialmente o facto de ser Lana a dar os primeiros passos na relação, quebrando qualquer estereótipo de género. A sua personalidade fogosa, impulsiva e determinada fazem dela uma personagem inesquecível neste romance!
Em último lugar, não posso deixar de mencionar Jay e Suzanne, pais biológicos de Callie, que, perante o reaparecimento da filha que julgavam perdida, reencontram o amor que sempre os uniu. Este foi provavelmente o casal que mais me emocionou, ao observar a forma como a perda um filho quase os destruiu completamente, para finalmente reencontrarem a felicidade nos braços um do outro.
Mais uma vez, Nora Roberts recorre à sua extraordinária capacidade para criar um romance cativante, com personagens arrebatadoras, temáticas pujantes e emotivas, sem esquecer uma boa pitada de humor.
14:15 Publicada por Unknown 2