RECENTES

Mostrar mensagens com a etiqueta Civilização Editora. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"A Espia da Rainha" de Philippa Gregory [Opinião Literária]

Título: A Espia da Rainha
Autora: Philippa Gregory
Editora: Civilização Editora
Coleção: A Corte dos Tudor (nº4)

Sinopse:
No Inverno de 1553, a jovem Hannah, uma judia de 14 anos, e o pai fogem para Londres perseguidos pela Inquisição Espanhola. Fixam-se nesta cidade e abrem uma livraria onde Hannah conhece o Lord Robert Dudley, um aristocrata influente. Dudley apercebe-se de que Hannah tem o dom de ver o futuro e leva-a para a corte para ser o bobo e espiar as irmãs, rivais e pretendentes ao trono, Mary Tudor e Elizabeth. Contratada como bobo, mas a trabalhar como espia, prometida em casamento a um judeu, mas apaixonada por Lord Robert Dudley, ameaçada pelas leis contra a heresia, traição e feitiçaria, Hannah tem que escolher entre a vida segura e tranquila de uma pessoa comum, ou a vida no centro das perigosas intrigas da família real.

Opinião:
Neste volume somos convidados a visitar novamente a corte dos Tudor – a mais intriguista, sangrenta e volúvel da história –, desta vez no reinado dos descendentes de Henrique VIII.  Abordando a ascensão ao trono de Mary e os jogos políticos que tiveram como objetivo colocar a sua irmã Elizabeth a reinar, Philippa Gregory estabelece um excelente retrato histórico nos meandros de uma estória ainda mais fictícia que o habitual. Pela primeira vez, o foco é uma personagem completamente imaginária, que constitui o elo de ligação entre todos os acontecimentos e intervenientes verídicos.   
Contudo, a protagonista, Hannah, não me convenceu. A sua caracterização é confusa e inconsistente. Tanto é descrita pela autora como uma jovem forte e espirituosa que deseja acima de tudo ser independente da autoridade de um homem (algo bastante discrepante para a época), como no momento seguinte está apaixonada pelo seu superior Robert Dudley, enquanto rejeita terminantemente envolver-se com o seu noivo Daniel. Ao longo de toda a obra achei-a imatura, teimosa e por vezes muito egoísta.
No entanto, a autora compensa com o retrato de Mary Tudor. Conhecida como uma rainha sangrenta, pela sua obsessão com a fé verdadeira – a católica – que originou a perseguição e massacre de protestantes, a autora apresenta uma versão mais compassiva e realista das razões para o seu eventual declínio. Mary é aqui caracterizada como uma mulher que sofreu toda a sua vida ao ser afastada do trono e da linhagem real pelo próprio pai, o rei Henrique, e impossibilitada de visitar a mãe, Catarina de Aragão, no seu leito de morte. Por este motivo, Mary nunca perdoou a Ana Bolena por seduzir o rei mas, apesar de tudo não projeta este ódio à sua meia-irmã Elizabeth. Na verdade, a relação entre ambas é o ponto alto desta obra, um contraste entre duas personalidades distintas e duas crenças incompatíveis. Elizabeth, claro, é a imagem da sua mãe, uma verdadeira herdeira da ambição e calculismo dos Bolena. É esta desilusão perante a irmã mais nova que sempre amou que leva Mary numa espiral de ressentimento e depressão que condenou para sempre o seu reinado.  
O enredo é, portanto, mais focado na dimensão psicológica de Mary e na vida de Hannah enquanto espia na corte, o que francamente acabou por se tornar um pouco entediante. A estória poderia ter sido encurtada e teria sido mais interessante ter como protagonista Mary do que Hannah. O desenlace final é também previsível e melodramático, sem grande relevância como romance histórico. Não gostei da aposta da autora em tornar esta obra ainda mais fictícia do que o habitual, pois perdeu o encanto dos volumes anteriores. Ainda assim, foi uma leitura que entreteve e uma aposta segura para quem aprecia as obras de Philippa Gregory.
Deixo, no final, uma pequena consideração à editora relativamente à tradução dos nomes: ou os traduzem em todos os volumes de uma série ou não. Não percebo como em alguns volumes os nomes estão traduzidos diretamente (Elizabeth para Isabel e Mary para Maria) enquanto neste mantêm o original. Honestamente não sou grande apreciadora das traduções de nomes mas pelo menos sejam consistentes! 
23:38 Publicada por Unknown 0

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

"Compaixão" de Jodi Picoult [Opinião Literária]

Título: Compaixão
Autora: Jodi Picoult
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Se o amor da sua vida lhe pedisse ajuda para morrer, que faria? O comandante da polícia de uma pequena cidade de Massachusetts, Cameron McDonald, faz a detenção mais difícil da sua vida quando o seu primo Jamie lhe confessa ter matado a mulher, que sofria de uma doença terminal, por compaixão. Agora, um intenso julgamento por homicídio coloca a cidade em alvoroço e vem perturbar um casamento estável: Cameron, colaborando na acusação contra Jamie, vê-se, de repente, em confronto com a sua mulher, Allie – fascinada pela ideia de um homem amar tanto a mulher a ponto de lhe conceder todos os desejos, até mesmo o de acabar com a vida dela. E quando uma atracção inexplicável leva a uma traição chocante, Allie vê-se confrontada com as questões sentimentais mais difíceis: quando é que o amor ultrapassa os limites da obrigação moral? E o que é que significa amar verdadeiramente alguém?

Opinião:
A premissa desta obra é fascinante. Como qualquer estória criada por Jodi Picoult, a temática abordada é atual, pujante e polémico. A eutanásia é provavelmente uma das grandes questões da sociedade moderna, em que o prolongamento da vida através dos avanços na medicina não se traduz necessariamente num aumento da qualidade de vida. Como futura profissional de saúde, não é eticamente correto colocar esta questão. Como ser humano, é impossível não me questionar acerca do sofrimento dos doentes terminais, do desespero que leva alguém a considerar a morte como um alívio. Mas seriamos capaz de tomar esta decisão por alguém que amamos? Claramente um tópico difícil, para o qual a autora demonstra diversas perspetivas, sem nunca emitir um juízo final, instigando uma reflexão profunda acerca dos limites do amor e do valor da dignidade humana.
Este assunto é retratado pela visão de Jamie, um homem perdidamente apaixonado pela esposa em estado terminal, que cede ao seu desejo e acaba com o seu sofrimento. A caracterização desta personagem é cativante, sendo apresentado como um homem devastado pela dor perante a morte da mulher. Inicialmente acreditando que tomou a melhor decisão, Jamie percorrerá um percurso intenso na sua mente para finalmente aceitar que talvez o amor não justifique tudo. Ainda que discordemos com a perspetiva de Jamie, as questões levantadas ao longo da estória levarão o leitor a refletir sobre os seus próprios valores e convicções. Porém, estranhamente, nunca obtemos a perspetiva de Maggie. Penso que teria sido uma abordagem mais completa se tivesse incluído o ponto de vista da doente terminal.
Infelizmente, esta temática promissora é desperdiçada num enredo secundário (e que, no final, acaba por dominar toda a narrativa) sobre um casamento que vai ser posto à prova pela sombra do adultério. Esta até poderia ter sido uma visão interessante, honesta e crua das dificuldades inerentes a um casamento, se as personagens não fossem tão absurdamente detestáveis! Cam é provavelmente o pior pesadelo de qualquer esposa: mentiroso, condescendente, egoísta. Mesmo antes de começar o seu caso extramarital com Mia, já sentia pena de Allie pelo simples facto de ter que o aturar. Além disso, a maneira como a relação entre Cam e Mia começa é simplesmente estranha e pouco credível. Embora a autora tente incluir alguns momentos redentores para Cam, não consegui de maneira nenhuma apreciar nem um bocadinho desta personagem.
E quanto a Allie? Basicamente passei o livro todo à espera que esta mulher deixasse de ser tão ingénua, tão passiva, tão solícita a cumprir os desejos do marido. Quando finalmente descobre a sua traição sofre uma transformação drástica e finalmente pensei que veria uma mulher forte, independente, renascida do sofrimento que o casamento lhe impôs. Contudo, esta mudança dura praticamente dois dias e volta tudo ao início. Foi uma desilusão completa.
Talvez a intenção da autora fosse estabelecer um paralelismo entre a relação de Jaime e Maggie, tão perfeita mas que culmina em desgraça, e o casamento de Allie e Cam que, apesar das dificuldades enfrentadas, mantém-se intacto. No entanto, foi simplesmente frustrante observar certas personagens com atitudes horrendas a safarem-se facilmente e sem grandes consequências. Se Jodi Picoult tencionava gerar alguma simpatia no leitor falhou redondamente.
A sua escrita, porém, mantém-se dinâmica, acessível e fluída, com a exceção dos inúmeros flashbacks relacionados com a Escócia sem grande relevância e que parecem inseridos no meio dos capítulos apenas para encher as páginas.
No fundo, a autora tentou construir duas estórias demasiado complexas para serem trabalhadas em simultâneo, acabando por diluir o impacto da temática inicial – a eutanásia – em virtude de um drama sem grande interesse. Uma prestação fraca de uma autora que já comprovou ser bem melhor.
13:12 Publicada por Unknown 13

sexta-feira, 26 de julho de 2013

"A Rainha Branca" de Philippa Gregory [Opinião Literária]

Título: A Rainha Branca
Autora: Philippa Gregory
Editora: Civilização Editora
Coleção: A Guerra dos Primos (nº2)

Sinopse:
A história do primeiro volume de uma nova trilogia notável desenrola-se em plena Guerra das Rosas, agitada por tumultos e intrigas. Autora de bestsellers internacionais, Philippa Gregory dá vida a este drama de família através das suas mulheres, começando com a história de Isabel Woodville, a Rainha Branca.
A Rainha Branca é a história de uma plebeia que ascende à realeza servindo-se da sua beleza, uma mulher que revela estar à altura das exigências da sua posição social e que luta tenazmente pelo sucesso da sua família, uma mulher cujos dois filhos estarão no centro de um mistério que há séculos intriga os historiadores: o desaparecimento dos dois príncipes, filhos de Eduardo IV, na Torre.
Através da sua visão única, Philippa Gregory explora o maior mistério até hoje por resolver, baseando-se numa investigação perfeita e recorrendo ao seu inimitável talento como contadora de histórias.

Opinião:
Mais uma vez Philippa Gregory consegue aliar uma notável caracterização histórica a uma extraordinária e aliciante componente ficcional, produzindo uma obra repleta de conspirações, intrigas e jogos de poder num reino permanentemente em guerra. A autora retrata de uma forma brilhante a instabilidade da monarquia inglesa no século XV, em que nem os laços de sangue impedem a rivalidade entre as Casas Iorque e Lencastre.
Uma guerra entre primos que rapidamente se torna numa guerra entre irmãos, com Eduardo IV e os seus irmãos Jorge, Duque de Clarence, e Ricardo, Duque de Iorque, a lutarem em lados opostos pelo mesmo objetivo: o trono de Inglaterra. Assistimos, pois, às batalhas mais sangrentas, às traições mais profundas, às reviravoltas mais surpreendentes!
É neste contexto que acompanhamos a vida de Isabel Woodville, uma jovem viúva com dois filhos que consegue deslumbrar o Rei e assim assegurar a posição social da sua família. Contudo, Isabel rapidamente aprende que não pode confiar em ninguém. Esta personagem é retratada de uma forma muito realista, dotada de uma personalidade forte e uma determinação férrea, sem meios a medir para atingir os seus objetivos. No final, é confrontada pela própria filha acerca das decisões que tomou: terá sido a sua própria ambição que selou o desfecho da sua família?
Na verdade, numa época marcada pela ambição desmedida e disputas pelo trono, ninguém está a salvo. Nem mesmo quando Isabel assegura um herdeiro para o Rei, o trono de Inglaterra fica garantido. Isto é comprovado pelo desaparecimento dos dois príncipes, filhos de Eduardo IV e Isabel, na Torre. Um dos mistérios mais obscuros da história de Inglaterra, para o qual a autora formula uma explicação plausível e interessante, mas um mistério que ainda hoje permanece sem resposta…
Uma dos aspetos mais original desta obra é a alusão a Melusina, uma deusa da água. Isabel, como sua descendente, é aparentemente dotada de alguns poderes sobrenaturais que a ajudam a cumprir o seu destino enquanto rainha de Inglaterra. Este elemento subjetivo de magia e lenda tem um papel fundamental ao longo da estória e adorna o retrato histórico mais objetivo e factual desta obra. Adorei este toque místico e supersticioso, tornou o enredo mais apelativo e inovador.
Apesar de ser um livro algo exaustivo na contextualização histórica e política da guerra, é também uma das obras mais ficcionais da autora, uma visão bastante romanceada dos eventos que caracterizaram esta época. Não deixa de ser, contudo, um retrato intenso do efeito devastador da guerra e das consequências da luta pelo poder, uma fiel caracterização de uma Inglaterra dividida, cruel e em permanente mudança.
14:26 Publicada por Unknown 4

terça-feira, 16 de abril de 2013

"Sombras do Passado" de Tana French [Opinião Literária]

Título: Sombras do Passado
Autora: Tana French
Editora: Civilização Editora
Coleção: Brigada de Investigação Criminal de Dublin (nº3)

Sinopse:
Um momento decisivo - aos dezanove anos - definiu o rumo de vida de Frank Mackey: quando a sua namorada, Rosie Daly, não compareceu a um encontro em Faithful Place e, dessa forma, não fugiu com ele para Londres como tinham planeado. Frank não voltou a ter notícias dela.
Vinte anos mais tarde, Frank vive ainda em Dublin e trabalha como polícia infiltrado. Cortou todos os laços com a sua família disfuncional. Até ao dia em que a irmã lhe telefona a dizer que encontraram a mala de Rosie. Frank embarca numa viagem ao passado que o leva a reavaliar tudo aquilo que ele crê ser verdade.

Opinião:
Neste terceiro volume da coleção que caracteriza a Brigada de Investigação Criminal de Dublin, acompanhamos a jornada de Frank Mackey, uma personagem secundária em A Semelhança, que finalmente tem aqui o seu destaque.
O enredo é cativante, na medida em que aborda um crime cometido há duas décadas, envolvendo segredos do passado e mistérios escondidos nas memórias da adolescência do protagonista. Por conseguinte, a narrativa é permeada por analepses, estabelecendo a ponte perfeita entre as trevas que ensombraram o bairro de Faithful Place há cerca de vinte anos e que insistem em permanecer na atualidade. Apesar destes constantes saltos temporais, a narrativa mantém um ritmo intenso, ávido e estimulante.
O protagonista, Frank, é uma personagem forte, bem delineada, cujo carácter pujante e determinado são fulcrais para o desafio que tem pela frente: confrontar o seu passado, colocando em dúvida tudo o que tomara como certo. Foi certamente interessante observar a maneira como a sua infância e a sua família disfuncional o moldaram, tanto no bom como no mau sentido. Estamos, pois, perante uma questão pertinente: será que alguns traços de personalidade são apenas genéticos, ou o meio em que nos desenvolvemos terá a sua influência em potenciar algumas das nossas características e escolhas? Apreciei bastante a abordagem neste contexto de temas como o alcoolismo, a violência doméstica, a negligência parental, fatores que determinaram a vida de Frank e dos seus quatro irmãos, cada um à sua maneira.  
Mais uma vez, a autora emprega a sua escrita muito particular: honesta, algo crua, com algum humor, que promove um maior realismo e naturalidade nos diálogos. A autora mantém o suspense até ao final da obra, pois, mesmo que a chave para a resolução do mistério seja revelada algo precocemente, o leitor está tão agarrado à estória e às personagens que não conseguirá pousar o livro até chegar ao final.
Em suma, penso que Tana French atingiu o seu auge nesta obra, ao construir um policial intenso e estimulante, estabelecendo em paralelo uma reflexão interessante sobre a influência da família no desenvolvimento da personalidade e o facto de nunca podermos verdadeiramente escapar ao nosso passado.
00:32 Publicada por Unknown 4

domingo, 31 de março de 2013

"A Herança Bolena" de Philippa Gregory [Opinião Literária]

Título: A Herança Bolena
Autora: Philippa Gregory
Editora: Civilização Editora
Coleção: A Corte dos Tudor (nº3)

Sinopse:
Uma maravilhosa evocação da corte de Henrique VIII e da mulher que destruiu duas das suas rainhas.
Estamos no ano de 1539 e a corte de Henrique VIII teme cada vez mais as mudanças de humor do rei envelhecido e doente. Com apenas um bebé de berço como herdeiro, Henrique tem de encontrar outra esposa e o perigoso prémio da coroa da Inglaterra é ganho por Ana de Clèves. Ela tem as suas razões para aceitar casar-se com um homem com idade para ser seu pai, num país onde tanto a língua como os costumes lhe são estranhos. Apesar de deslumbrada por tudo o que a rodeia, sente que uma armadilha está a ser montada à sua volta. A sua aia Catarina tem a certeza de que conseguirá seguir os passos da prima Ana Bolena até ao trono mas Jane Bolena, cunhada de Ana Bolena, assombrada pelo passado, sabe que o caminho de Ana a levou à Torre e a uma morte como adúltera.

Opinião:
Neste terceiro volume da saga A Corte dos Tudor acompanhamos, como o nome indica, a corte de Henrique VIII e o seu reinado sangrento. A autora mais uma vez explora o papel da mulher nesta sociedade, destacando a importância da sedução e da intriga para a ascensão na corte. A estória é narrada por três vozes que complementam as diferentes perspetivas da narrativa: Ana de Clèves, Jane Bolena e Catarina Howard.
Entre o segundo volume e esta obra existe um salto temporal, correspondente ao casamento do Rei com Jane Seymour, do qual resultou o primeiro herdeiro masculino ao trono. Porém, a morte precoce de Jane Seymour despoleta em Henrique a necessidade de assegurar a sua descendência através de mais filhos. Para isso, encontra a sua futura esposa em Ana de Clèves. Esta, desesperada por escapar à tirania do seu irmão em Clèves (território germânico), aceita o casamento com um homem que viria a detestar, num país cujos costumes e língua não domina. Esta foi provavelmente a minha personagem favorita, na medida em que evolui de uma forma consistente ao longo de toda a obra. Inicialmente apresenta-se como uma mulher tímida, rústica, com uma educação extremamente conservadora, algo que choca profundamente com o ambiente de folia, extravagância e sensualidade da corte. O Rei rapidamente se sente desagradado por esta esposa tão cáustica e enfadonha. No entanto, falha em perceber o quanto Ana pode ser carinhosa, inteligente e carismática. Apreciei o seu carácter ponderado, a maneira como mantém a sua dignidade mesmo quando profundamente humilhada e desprezada, mas principalmente a forma inteligente como não se deixa manipular e influenciar pelas intrigas e conspirações da corte. Talvez não possua a determinação inquebrável de Catarina de Aragão ou a ambição desmedida de Ana Bolena, mas foi a sua inteligência prudente e comedida que provavelmente a salvou do final sangrento e indigno das suas precedentes.
Por outro lado, Catarina Howard é o completo oposto. Tal como Ana Bolena, Catarina é uma das aparentemente inesgotáveis sobrinhas do Duque de Norfolk, o homem por detrás de todas as grandes conspirações contra o Rei. Mais um peão introduzido na corte para atrair o Rei e a sua riqueza, Catarina é provavelmente a personagem mais irritante de toda a obra. Fútil, ignorante e preguiçosa, é frustrante observar como com apenas a sua beleza e encanto consegue rapidamente ser o alvo da paixão do Rei e afastar Ana de Clèves do trono. Contudo, no final, não consegui odiar Catarina. No fundo, era apenas uma jovem de quinze anos, sem grande experiência de vida, que foi manipulada e enganada, sem sequer se aperceber da teia de intrigas e inimigos que foi tecida à sua volta.
Para entendermos toda esta rede de manipulação e intriga, surge Jane Bolena, a personagem que no livro anterior testemunha contra o próprio marido Jorge e a sua cunhada Ana Bolena, acusando-os falsamente de traição ao Rei, de forma a salvar a sua vida e a herança da família. É interessante como no volume anterior esta personagem é apenas visível pela perspetiva de Jorge, Ana ou Maria Bolena, enquanto nesta obra temos acesso às suas impressões contraditórias sobre os Bolena e os motivos por detrás da sua traição. Mais uma vez na corte, graças à influência do seu tio, o grande conspirador Duque de Norfolk, a função de Jane é servir a rainha e, obviamente, assumir o papel de informadora e espia para o seu tio. Jane revelou-se uma mulher fraca, constantemente manipulada pelo seu tio e permanentemente afogada em remorsos pela morte do seu marido. O seu declínio emocional é interessante de observar ao longo da estória, mas acaba por se tornar algo repetitivo.
Um aspeto muito positivo é a caracterização de Henrique VIII, sempre através dos olhos das restantes personagens, que o descrevem como um homem violento, decrépito, incapaz de aceitar o seu envelhecimento e que lentamente sucumbe à loucura. O declínio gradual deste Rei, um homem que decide viver apenas ao sabor dos seus caprichos, é percetível ao longo desta saga e neste volume atinge o seu auge. O ambiente pesado e apreensivo da corte é meticulosamente retratado, evidenciando a ansiedade permanente dos nobres em adular e agradar ao seu Rei para obter riquezas e, principalmente, para sobreviverem às suas oscilações de humor.
Philippa Gregory demonstra de novo a sua capacidade exímia para efetuar uma pesquisa histórica rigorosa e interligar factos concretos com pormenores fictícios, sem ser demasiado descritiva ou monótona. Todos os diálogos e detalhes são perfeitamente credíveis, apesar de originados pela imaginação da autora. Os acontecimentos adquirem uma sequência lógica e verosímil, levando o leitor a acreditar que esta terá sido a realidade da época. Convém também ressalvar a hipótese de todos os volumes da saga puderem ser lidos em separado e sem sequência rígida, pois todos asseguram um enredo definido e completo, embora recomende sempre a ordem original. Sem dúvida aconselhável a qualquer leitor que aprecie um bom romance histórico!
17:19 Publicada por Unknown 0

segunda-feira, 25 de março de 2013

"O Circo dos Sonhos" de Erin Morgenstern [Opinião Literária]

Título: O Circo dos Sonhos
Autora: Erin Morgenstern
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Um misterioso circo itinerante chega sem aviso e sem ser precedido por anúncios ou publicidade. Um dia, simplesmente aparece. No interior das tendas de lona às listas pretas e brancas vive-se uma experiência absolutamente única e avassaladora. Chama-se Le Cirque des Rêves (O Circo dos Sonhos) e só está aberto à noite.
Mas nos bastidores vive-se uma competição feroz – um duelo entre dois jovens mágicos, Celia e Marco, que foram treinados desde crianças exclusivamente para este fim pelos seus caprichosos mestres. Sem o saberem, este é um jogo onde apenas um pode sobreviver, e o circo não é mais do que o palco de uma incrível batalha de imaginação e determinação. Apesar de tudo, e sem o conseguirem evitar, Celia e Marco mergulham de cabeça no amor – um amor profundo e mágico que faz as luzes tremerem e a divisão aquecer sempre que se aproximam um do outro.
Amor verdadeiro ou não, o jogo tem de continuar e o destino de todos os envolvidos, desde os extraordinários artistas do circo até aos seus mentores, está em causa, assente num equilíbrio tão instável quanto o dos corajosos acrobatas lá no alto.

Opinião:
Esta leitura foi um autêntico assalto aos sentidos, uma estória onde a magia ganha uma nova dimensão e onde os sonhos não são mais do que uma mera extensão da vida. É uma obra com todos os ingredientes para uma experiência extraordinária, cujo desprendimento da realidade enfeitiça e provoca a nossa imaginação.
As descrições do Circo dos Sonhos são estonteantes. Não há nada melhor para um leitor do que um ambiente tão profundamente mágico, tão rico em detalhes preciosos, capaz de embrenhar qualquer um na essência deste circo. Apesar do seu glamour a preto e branco, não tem nada de enfadonho ou aborrecido. Cada tenda descrita e cada encantamento demonstrado é uma fonte de fascínio e deslumbramento. O mais interessante é que a magia neste livro não é retratada como a típica ilusão criada por efeitos óticos que se quer fazer passar por magia, é na verdade uma magia pura e verdadeira, tão perfeita que aos olhos dos comuns mortais só poderá ser uma ilusão. Por conseguinte, estamos perante um espetáculo muito diferente, inesperado, vertiginoso.
A própria capa e o grafismo do livro remetem para uma elegância sóbria, uma beleza subtil e enigmática. Nunca tive o prazer de ver uma edição que captasse tão fielmente o espírito da estória, principalmente um ambiente tão etéreo e formidável como a autora criou.
No centro deste mundo circense jaz uma estória de um amor impossível, um romance muito especial entre duas personagens com um poder em comum mas métodos diferentes. Celia e Marco são duas versões do mesmo dom, da mesma maldição que os compele um para o outro. Este é um romance tragicamente belo, talvez um pouco irreal, mas em sintonia com o mundo extraordinário que os rodeia.  
A competição que domina o enredo principal não é um duelo assente em confrontos físicos ou batalhas explosivas, mas sim um jogo de perícia, indireto e imaterial, com consequências belíssimas para o Circo dos Sonhos. Esta competição abstrata e subtil travada entre Marco e Celia enquadra-se perfeitamente no ambiente mágico do circo, complementando-o e perpetuando o encantamento.
As restantes personagens complementam perfeitamente o enredo. Cada uma desempenha um papel relevante, com as suas capacidades únicas e as suas idiossincrasias. Todas elas fervilham de vida, de excentricidade, de magia! O fascínio e paixão pelo circo que estas personagens transmitem atravessa as páginas do livro e atinge diretamente o coração do leitor.
A narrativa é pontuada por saltos temporais que adicionam mais dinâmica e enigma à estória, embora requeiram redobrada atenção. Outro aspeto muito positivo são as passagens em que a autora dirige a sua voz diretamente ao leitor, introduzindo-o neste fenómeno circense, criando uma proximidade invulgar mas tremendamente eficaz.
Com uma escrita fluída e delicada, Erin Morgenstern cria uma verdadeira ilusão para o leitor: as suas palavras transcendem o imaginário, fizeram-me acreditar que fazia parte deste mundo de sonhos. É quase um conto de fadas, contado de uma forma magistral! Não é o livro adequado para quem espera um romance realista e factual, mas aconselho vivamente a todos os que dispõem de uma mente aberta e um espírito sonhador.
23:58 Publicada por Unknown 2

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"A Casa das Almas Perdidas" de F.G. Cottam [Opinião Literária]


Título: A Casa das Almas Perdidas
Autor: F. G. Cottam
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Apenas algumas semanas depois de quatro estudantes terem entrado na Fisher House, um deles comete suicídio e os outros três estão a ceder à loucura. Para salvar a sua irmã, um dos quatro estudantes, o ex-soldado Nick Mason tem de unir forças com Paul Seaton - que visitou a casa uma década antes e sobreviveu. Mas Paul é um homem perturbado, assombrado por visões de um acontecimento que ainda hoje atormenta a sua sanidade. Desesperado, Nick força Paul a regressar ao passado, ao diário secreto da bonita fotógrafa Pandora Gibson-Hoare, a uma reunião nos anos 20 e a Klaus Fisher - o responsável por um crime indescritível. A Fisher House está de volta, e alguns velhos amigos reúnem-se para dar as boas-vindas a Paul.

Opinião:
Esta é uma estória de terror, mistério e com contornos sobrenaturais. Paul Seaton, a personagem principal, é um homem perturbado e com um passado misterioso que nos é revelado em pequenas doses ao longo da narrativa.
A abordagem da magia negra neste livro foi a parte mais positiva, principalmente as personagens que enveredam nesta área. A melhor, porém, é Pandora, uma simpatizante da magia negra mas que não pretende verdadeiramente prejudicar ninguém. Quando o autor dá a conhecer as páginas do seu diário, embrenhamos na sua estória, na sua vida e no mundo de magia que habitava.
Contudo, para o potencial que esta estória continha, revelou-se uma leitura demasiado lenta, que se arrastou e apenas nas últimas páginas se torna mais entusiasmante. Apesar de ter apreciado algumas partes, esta leitura tornou-se um pouco desmotivante com o passar do tempo e não foi propriamente marcante.
21:42 Publicada por Unknown 4

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

"Duas Irmãs, Um Rei" de Philippa Gregory [Opinião Literária]

Título: Duas Irmãs, Um Rei
Autora: Philippa Gregory
Editora: Civilização Editora
Coleção: A Corte dos Tudor (nº2)

Sinopse:
Duas Irmãs, Um Rei apresenta uma mulher com uma determinação e um desejo extraordinários que viveu no coração da corte mais excitante e gloriosa da Europa e que sobreviveu ao seguir o seu próprio coração.
Quando Maria Bolena, uma rapariga inocente de catorze anos, vai para a corte, chama a atenção de Henrique VIII. Deslumbrada com o rei, Maria Bolena apaixona-se por ele e pelo seu papel crescente como rainha não oficial. Contudo, rapidamente se apercebe de que não passa de um peão nas jogadas ambiciosas da sua própria família. À medida que o interesse do rei começa a desvanecer-se, ela vê-se forçada a afastar-se e a dar lugar à sua melhor amiga e rival: a sua irmã, Ana. Então Maria sabe que tem de desafiar a sua família e o seu rei, e abraçar o seu destino. Uma história rica e cativante de amor, sexo, ambição e intriga.

Opinião:
A partir deste livro iniciamos uma viagem até ao século XVI, mais concretamente, até à corte de Henrique VIII. Neste contexto exploramos o papel da mulher numa sociedade em que a posição na corte depende do favor do Soberano, onde os jogos de sedução são a maneira ideal para uma mulher ascender na hierarquia.
Inicialmente, é Maria Bolena que desperta o interesse do Rei e desfruta dos luxos associados a uma amante real. Porém, rapidamente descobre que a sua função consiste em ser um mero peão nas mãos da sua família. A ambição desmedida dos Bolena tem um único objetivo: destronar a Rainha Catarina, que conhecemos no volume anterior, e tornar Maria na nova Rainha de Inglaterra. No entanto, Henrique, um homem caprichoso, desvia a sua atenção para Ana, irmã de Maria. É assim que irmãs se tornam rivais numa corte onde o poder se sobrepõe à família ou à moral.
É interessante observar a evolução de Henrique, desde um menino mimado em Catarina de Aragão, para um homem egocêntrico e habituado a ter tudo o que quer. Ana Bolena compreende instintivamente a verdadeira natureza deste Rei e é esse o seu trunfo.  Ana é sem dúvida uma personagem fabulosa, incapaz de deixar qualquer leitor indiferente. Uma mulher imparável, astuta, sedutora e ambiciosa, que não olha a meios para atingir o fim que pretende.
Adorei esta perspetiva muito humana e realista, ainda aplicável na atualidade: a sede de poder é capaz de mover montanhas, ainda que o preço a pagar seja elevado. Mesmo os interesses supostamente divinos e religiosos são, no fundo, dirigidos para um único propósito: um maior poder. Um livro que demonstra bem a hipocrisia humana na época.
Mais uma vez, Philippa Gregory reúne uma rigorosa pesquisa histórica para proporcionar ao leitor uma experiência única: a viagem a uma época distante, com personagens ricas e cativantes, associando acontecimentos históricos a detalhes fictícios de uma forma perfeitamente credível. Uma excelente leitura, não apenas para os fãs de romance histórico, mas principalmente para quem aprecia uma boa estória de intrigas e traição.

23:12 Publicada por Unknown 0

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"No Seu Mundo" de Jodi Picoult [Opinião Literária]


Título: No Seu Mundo
Autora: Jodi Picoult
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Jacob Hunter é um adolescente: brilhante a Matemática, sentido de humor aguçado, extraordinariamente bem organizado, incapaz de seguir as regras sociais. Jacob tem síndrome de Asperger. Está preso no seu próprio mundo - consciente do mundo exterior e querendo relacionar-se com ele. Jacob tenta ser um rapaz como os outros mas não sabe como o conseguir.
Quando o seu tutor é encontrado morto, todos os sinais típicos da síndrome de Asperger – não olhar as pessoas nos olhos, movimentos descontrolados, acções inapropriadas – são identificados pela Polícia como sinais de culpa. E a mãe de Jacob tem de fazer a si própria a pergunta mais difícil do mundo: será o seu filho capaz de matar?

Opinião:
Como já seria de esperar, Jodi Picoult envolve o leitor com uma estória intensa e uma narrativa coerente e bem desenvolvida. Mais uma vez aborda uma temática controversa – neste caso o autismo – de uma forma incrível.
Um dos aspetos que contribuem para uma leitura dinâmica e fluida é a divisão em capítulos curtos, cada um com o ponto de vista de uma personagem, com um tipo de letra diferente, o que potencia a ideia que estamos perante diferentes perspetivas do mesmo acontecimento.
Uma dessas perspetivas é inovadora e muito interessante: vemos o mundo pelos olhos de Jacob, um jovem com Síndrome de Asperger, ou seja, temos acesso à sua realidade, muito literal, sem emoção, o que não significa que não possua sentimentos ou amor pela sua família.
Contudo, a meio da estória fiquei frustrada, revoltada, incapaz de sossegar. E porquê? Porque me senti profundamente impotente perante a situação de Jacob. Apenas porque tem limitações sociais, ninguém é capaz de o perceber, de o defender. É simplesmente tão injusto que acabei por viver todas estas emoções com as personagens. E é esta a magia da escrita de Jodi Picoult, a sua capacidade em caracterizar personagens com as quais nos identificamos instantaneamente.  
23:50 Publicada por Unknown 2

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"O Décimo Círculo" de Jodi Picoult [Opinião Literária]


Título: O Décimo Círculo
Autora: Jodi Picoult
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Daniel Stone era o único rapaz branco da vila esquimó do Alasca onde a mãe dava aulas. Por ser diferente, todos troçavam dele sem misericórdia e ele retribuiu tornando-se o pior dos adolescentes, roubando, bebendo e assaltando, até um dia deixar a vila. Quinze anos depois, Daniel é uma pessoa totalmente diferente: um pai calmo e atencioso, autor de banda desenhada, casado com uma professora que dá aulas sobre Dante e o seu Inferno. Trixie, a filha de ambos, é tudo para Daniel. Mas toda esta calma é perturbada no dia em que Trixie é violada numa festa e Daniel começa a debater-se novamente com uma impotência e uma raiva que podem destruí-lo a si e à sua família.
O Décimo Círculo questiona até onde somos capazes de ir por alguém que amamos e quantas vezes somos capazes de nos reinventar até os nossos erros desaparecerem para sempre ou voltarem para nos assombrar quando menos esperamos. Mas este livro mostra que existe mais do que uma maneira de contar uma história. No livro encontramos também a banda desenhada de Daniel Stone que conta a história de uma rapariga que é raptada pelo diabo e levada para o inferno de Dante, e do pai que literalmente desce ao inferno para salvá-la. Este livro viaja desde os corredores de um liceu moderno até uma vila isolada no Alasca, e do inferno até ao coração desfeito de um pai.

Opinião:
No âmago deste livro encontra-se uma estória sobre uma violação. Uma violação a uma adolescente, que rapidamente vira uma pequena localidade de pernas para o ar. E, como em muitas pequenas comunidades, as pessoas nem sempre tomam o partido da vítima. Trixie, a vítima, passa a ser ridicularizada na escola e desacreditada pelos seus vizinhos e amigos. Assim, a autora aborda os problemas da juventude, a integração na escola e a sexualidade na adolescência, tudo isto através de um acontecimento nefasto.
Esta tragédia abala os alicerces de uma família que já se encontrava bastante fragilizada. Daniel, pai de Trixie, refugia-se na sua atividade como artista de banda desenhada, enquanto que Laura, mãe de Trixie, professora universitária especialista na Divina Comédia de Dante, abriga-se nesta sua paixão pelo Inferno de Dante. Através de uma estória de banda desenhada acerca de um homem que atravessa o Inferno de Dante para salvar a filha, a autora retrata a passagem pelo inferno do próprio Daniel na sua busca desesperada pela defesa da sua filha. Esta analogia é bastante interessante e os desenhos incorporados no texto tornou a leitura do livro muito mais dinâmica.
No fundo, a autora aborda inúmeras temáticas para além da violação: os segredos do passado, o amor de um pai, a traição, a recuperação de um trauma, a busca pela justiça. Alguns temas foram melhor explorados que outros mas desta leitura fica a sensação de que nada suplanta o amor de um pai por um filho.
16:39 Publicada por Unknown 0

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Tudo por Amor" de Jodi Picoult [Opinião Literária]


Título: Tudo por Amor
Autora: Jodi Picoult
Editora: Civilização Editora

Sinopse:
Nina Frost é delegada adjunta do Ministério Público, acusa pedófilos e todo o tipo de criminosos que destroem famílias. Nina ajuda os seus clientes a ultrapassar o pesadelo, garantindo que um sistema criminal com várias falhas mantenha os criminosos atrás das grades. Ela sabe que a melhor maneira de avançar através deste campo de batalha vezes sem conta, é ter compaixão, lutar afincadamente pela justiça e manter a distância emocional.
Mas quando Nina e o marido descobrem que o seu filho de 5 anos foi vítima de abuso sexual, essa distância é impossível de manter e sente-se impotente perante um sistema legal ineficiente que conhece demasiado bem. De um dia para o outro o seu mundo desmorona-se e a linha que separa a vida pessoal da vida profissional desaparece. As respostas que Nina julgava ter já não são fáceis de encontrar. Tomada pela raiva e pela sede de vingança, lança-se num plano para fazer justiça pelas próprias mãos e que a pode levar a perder tudo aquilo por que sempre lutou.

Opinião:
Se há algo que as obras de Jodi Picoult têm em comum é sem dúvida a abordagem de temáticas fortes e emocionais, levantando dilemas morais e questões éticas sempre atuais. Como é óbvio, este livro não é exceção. A autora aborda os abusos sexuais a menores, tema claramente polémico e extremamente sensível.
Mais ainda, este livro enaltece o amor de uma mãe por um filho. Ao longo da estória questionamo-nos até onde poderá uma mãe ir para salvar o seu filho. Ou, neste caso, para obter justiça perante a experiência atroz que o seu filho vivenciou. Mas será esta luta pela justiça completamente isenta de danos colaterais? Rapidamente compreendemos que nada é o que parece à primeira vista e que é importante não deixarmos que a emoção nos tolde a razão e nos leve a cometer atos irremediáveis.  
A própria representação de uma criança vítima de abusos sexuais está muito bem conseguida, assim como todo o seu processo de recuperação. De igual modo, o leitor tem acesso a inúmeras perspetivas desta estória – a visão da vítima, da mãe, do pai, da promotora de justiça, da psiquiatra, do advogado de defesa –, o que enriquece a leitura.
Este é um livro repleto de emoções fortes, envolvente até à última página, que dificilmente deixará o leitor indiferente.
21:46 Publicada por Unknown 0

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Catarina de Aragão - A Princesa Determinada" de Philippa Gregory [Opinião Literária]

 

Título: Catarina de Aragão – A Princesa Determinada
Autora: Philippa Gregory
Editora: Civilização Editora
Coleção: A Corte dos Tudor (nº1)

Sinopse:
Catarina de Aragão nasce Catarina, Infanta da Espanha, de pais que eram reis e cruzados. Aos três anos, foi prometida ao príncipe Artur, filho herdeiro de Henrique VII de Inglaterra, e é educada para ser Princesa de Gales. Sabe que o seu destino é reinar sobre aquela terra distante, húmida e fria. 
A sua fé é posta à prova quando o futuro sogro a recebe no seu novo país com uma grande afronta; Artur parece ser pouco mais do que uma criança; a comida é estranha e os costumes vulgares. Lentamente, adapta-se à sua primeira corte Tudor, e a vida como mulher de Artur vai-se tornando mais suportável. Inesperadamente, neste casamento arranjado começa a nascer um amor terno e apaixonado. 
Mas, quando o jovem Artur morre, ela tem que construir o seu próprio futuro: como pode ser agora Rainha da Inglaterra e fundar uma dinastia? Só casando com o irmão mais novo de Artur, o alegre, mas mimado, Henrique. O pai e a avó de Henrique são contra; os poderosos progenitores de Catarina revelam-se de pouca utilidade. No entanto, Catarina é filha de sua mãe e o espírito lutador é indomável. Fará qualquer coisa para alcançar o seu objectivo; mesmo que tal implique contar a maior das mentiras, e mantê-la.

Opinião:
Este é o primeiro volume de uma saga cuja temática me fascina: a época Tudor, descrita aqui de uma forma soberba. Neste livro acompanhamos Catarina de Aragão, primeiro como Princesa de Espanha e filha de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, Reis Católicos, e mais tarde, no seu árduo percurso para se Rainha de Inglaterra e, deste modo, atingir o que acredita ser o seu destino.
 A alternância entre uma narrativa na primeira e terceira pessoa é bastante eficaz, uma vez que assistimos ao crescimento e desenvolvimento da personalidade de Catarina, o gradual desvanecimento das suas crenças e convicções férreas. O seu preconceito contra os mouros, fruto das experiências bélicas sua infância, é posta em causa e Catarina começa a aperceber-se que a maior barbaridade está associada à fé cega e à obstrução do conhecimento imposta pelo cristianismo. É interessante observar o crescimento desta personagem, o seu distanciamento da educação que teve na infância, saindo da sombra das convicções resolutas e egoístas da sua mãe.
Surpreendentemente, este livro também acarreta uma grande componente romântica. Apesar de o casamento entre Catarina e Artur, herdeiro ao trono de Inglaterra, ter sido estipulado desde que eram meras crianças, este casamento arranjado acaba por originar uma verdadeira relação de amor e cumplicidade. Mas, obviamente, esta felicidade dá lugar à tragédia e Catarina vê-se forçada a cumprir o seu destino como Rainha de Inglaterra através de uma mentira dolorosa e de um casamento com o futuro Henrique VIII.
Para além da visão feminina que impregna os acontecimentos descritos nesta obra, também existem pormenores de cariz militar que tornam a estória mais dinâmica. A própria Catarina torna-se uma personagem multifacetada, na medida em que se revela como uma excelente estratega militar, liderando a ofensiva a Escócia.
Apesar dos abalos à sua enorme religiosidade, Catarina mantém-se forte e determinada, uma personagem verdadeiramente fascinante. Não conseguimos deixar de admirá-la como mulher e rainha.  
Por sua vez, é interessante observar o crescimento e a personalidade de Henrique VIII e apercebemo-nos de como este nunca deixou de ser um homem egoísta, mimado e altamente influenciável. É, pois, uma personagem que acabamos por repugnar, devido à sua imaturidade e egocentrismo.
A contextualização histórica está muito bem conseguida, imiscuindo detalhes verídicos com diálogos fictícios. Embora a descrição de alguns eventos e personalidades desta obra partam da imaginação da autora, é difícil crer que algo tenha acontecido de forma diferente. Aconselho vivamente aos amantes de romances históricos!
 
23:29 Publicada por Unknown 6